Confrontos carregam décadas de história, contam a formação das cidades e revelam divisões sociais que existiam muito antes da primeira bola rolar

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Rio de Janeiro, RJ, 06 (AFI) – Muito além de esporte, no Brasil, o futebol é linguagem, identidade e, muitas vezes, motivo de discussão que atravessa gerações dentro da mesma família.

Os grandes clássicos concentram tudo isso em 90 minutos. São confrontos que carregam décadas de história, contam a formação das cidades e revelam divisões sociais que existiam muito antes da primeira bola rolar.

Entender de onde vêm essas rivalidades ajuda a enxergar por que um jogo entre rivais consegue parar um estado inteiro.

Poucos duelos no mundo têm a aura do Fla-Flu. A rivalidade nasceu em 1912, quando um grupo de jogadores deixou o Fluminense para formar o departamento de futebol do Flamengo.

O primeiro confronto aconteceu em 7 de julho de 1912, com vitória tricolor por 3 a 2. A partir dali, o clássico virou símbolo de contrastes sociais no Rio de Janeiro.

O apelido veio do jornalista Mário Filho, o mesmo que dá nome ao Maracanã. E foi nesse estádio que o Fla-Flu registrou o recorde de público do futebol brasileiro entre clubes, com 194.603 pessoas em 1963.

Em 2012, o confronto foi declarado patrimônio imaterial do Rio de Janeiro, algo inédito para um jogo de futebol no país. O retrospecto reforça o equilíbrio histórico: em 371 partidas, o Flamengo soma 135 vitórias, contra 117 do Fluminense e 119 empates.

Em São Paulo, o grande embate é o Derby Paulista, entre Corinthians e Palmeiras. A rivalidade começou em 1917, quando as duas equipes eram as maiores potências da cidade.

O nome faz referência ao Derby de Epsom, tradicional corrida de cavalos inglesa. Quem batizou o clássico foi Thomaz Mazzoni, jornalista da Gazeta Esportiva nas décadas de 1930 e 1940.

O confronto é conhecido pelo equilíbrio quase absoluto. Em 375 jogos, o Palmeiras leva ligeira vantagem, com 133 vitórias, contra 129 do Corinthians e 113 empates.

O capítulo mais dramático veio na semifinal da Libertadores de 1999. Nos pênaltis, o goleiro Marcos defendeu a cobrança de Vampeta e viu Dinei acertar o travessão, defesas que consolidaram o apelido de “São Marcos” e levaram o Palmeiras ao título continental.

No Sul, Grêmio e Internacional protagonizam uma das rivalidades mais intensas do planeta. O Grenal é reconhecido pela garra, pela disputa física e por uma atmosfera única.

O termo surgiu em 1926, criado pelo jornalista Ivo dos Santos Martins, cansado de escrever os nomes completos dos dois clubes. Desde então, virou marca registrada do futebol gaúcho.

Em confrontos oficiais, o Internacional aparece à frente, com 160 vitórias, contra 139 do Grêmio e 138 empates. Para muitos torcedores, vencer um Grenal pode valer mais do que conquistar um título.

O episódio mais lembrado é o “Grenal do Século”, em 1988, quando o Inter, mesmo com um jogador a menos, virou o jogo com dois gols de Nilson e garantiu vaga na final do Brasileiro.

Em Minas Gerais, Atlético-MG e Cruzeiro dividem a capital entre o preto e branco do Galo e o azul da Raposa. Sem uma abreviação famosa como as anteriores, o duelo é chamado por lá de Superclássico.

A rivalidade cresceu com a inauguração do Mineirão nos anos 1960, palco que passou a concentrar os maiores públicos. No retrospecto geral, o Atlético leva vantagem, com 209 vitórias, contra 171 do Cruzeiro e 137 empates.

Os capítulos mais recentes ganharam decisões estaduais tensas e finais de Copa do Brasil que entraram para a memória das duas torcidas