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Atrás do balcão de sua loja de "fish and chips" perto do Etihad Stadium, Sailish Parekh conta que a influência do clube "citizen" transformou o leste de Manchester nos últimos 20 anos.

"O Manchester City não é apenas um clube aqui. É, de certa forma, um salvador", diz Parekh, que testemunhou as mudanças nessa cidade do norte da Inglaterra desde a aquisição do Manchester City por um fundo de investimento dos Emirados em 2008.

Décadas de declínio ligado à desindustrialização deram lugar a uma profunda renovação urbana.

Os bairros de Ancoats e New Islington, caracterizados por suas construções de tijolos, encheram-se de edifícios modernos, cafés e escritórios compartilhados (coworking) onde antes havia fábricas abandonadas.

"Quando cheguei, há 11 anos, um taxista me disse: ‘Um ano antes, eu não teria trazido você a este bairro’", contou Simon Martin, engenheiro de sistemas de 44 anos que vive em Ancoats.

Hoje, ele aprecia uma "comunidade agradável e muito bonita" e a presença de "muito mais famílias jovens", embora lamente o forte aumento dos aluguéis, que obrigou os moradores de menor renda a deixar a região.

Essa metamorfose reflete a influência do Manchester City e de seu proprietário, o Abu Dhabi United Group (ADUG), dirigido pelo xeque Mansour bin Zayed Al Nahyan, membro da família real dos Emirados Árabes Unidos.

Os investidores dos Emirados não apenas levaram o time ao topo do futebol europeu —conquistaram pela primeira vez a Champions League, em 2023—, como também injetaram capital no setor imobiliário, por meio de terrenos municipais arrendados a preços vantajosos para a construção de moradias e espaços comerciais.

Essa iniciativa, liderada pela Manchester Life —uma empresa imobiliária criada em 2014 com o apoio da cidade—, é criticada pela falta de transparência.

Uma pesquisa da Universidade de Sheffield, publicada em 2024 na revista científica Antipode, concluiu que o grupo permitiu uma "captura da valorização do solo em benefício da ADUG" e denunciou uma falta de transparência em torno da Manchester Life e dos investimentos realizados.

A prefeitura rejeitou as críticas e afirmou ter obtido "o melhor acordo" possível em um momento de escassez de investidores após a crise financeira mundial de 2007/08.

Segundo a prefeitura, a Manchester Life construiu 1.500 moradias e quase 2.800 metros quadrados de espaço comercial.

Atualmente, o City enfrenta o risco de uma grave punição, que pode ir da perda de pontos à expulsão da Premier League, depois que uma comissão independente determinou que o clube utilizou contratos comerciais "fictícios" para inflar artificialmente suas receitas e reduzir custos em mais de £ 900 milhões (R$ 5,9 bilhões) entre 2009 e 2018.

Para Subrahmian Krishnan-Harihara, diretor de pesquisa da Câmara de Comércio da Grande Manchester, o futebol, que coloca frente a frente os clubes rivais Manchester United e Manchester City, desempenha um "papel muito importante" na atratividade da cidade.

A cidade atrai 1,7 milhão de turistas estrangeiros por ano, em grande parte graças ao futebol.

Segundo a direção do clube, mais de £ 700 milhões (R$ 4,6 bilhões) foram investidos desde 2008 no campus do Etihad e em seus arredores, onde foram construídos centros esportivos, escolas, velódromos, estabelecimentos comerciais e a Co-op Live, uma casa de shows inaugurada em 2024.

A chegada dos investidores dos Emirados em 2008 foi "decisiva" durante a crise financeira mundial que levou à adoção de políticas de austeridade, destacou Georgina Blakeley, professora da Universidade de Huddersfield e coautora de um livro sobre o tema