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Manuel Moura dos Santos desconstrói o papel de jurado em televisão. O produtor e manager fala dos bastidores da música, da paixão pelo futebol e de uma visão desconcertante sobre a política no país.

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Há muita gente que me pergunta, ainda hoje, se eu sou sempre assim e eu digo a brincar: "Eles pagam-me para isso, eu faço o papel". Não é exactamente assim também, tem a ver um bocadinho com o meu feitio, mas fora das câmaras. E mesmo hoje, eu já faço o "Got Talent", já fizemos 10 temporadas. As coisas mudaram imenso. O tempo do "Ídolos" e daquele direto à cabeça, sem filtros absolutamente nenhuns, morreu. Morreu aqui e morreu no mundo inteiro, não foi só aqui. Seriam impossíveis. Não tenho dúvida nenhuma sobre isso. As coisas mudaram muito. Hoje a ideia da inclusão não permite determinado tipo de expressões. Além disso, eu faço o "Got Talent" numa estação pública. É diferente de uma estação privada. Os parâmetros, as guidelines do "Ídolos", no princípio, eram extremamente, para os dias de hoje, violentas.

Durante anos, o país habituou-se a vê-lo sob a luz dos estúdios de televisão, de braços cruzados, olhar clínico e uma frontalidade cirúrgica, ganhou a fama de jurado implacável. O homem que se recusava a vender facilidades num mundo cada vez mais sedento de aplausos rápidos e efémeros. Mas a televisão é apenas uma parte da moldura. Muito antes de ser o rosto temido dos programas de talentos, foi e continua a ser uma das mentes mais influentes dos bastidores da música em Portugal. Produtor e manager, esteve por trás na construção de carreiras lendárias, ergueu supergrupos que marcaram gerações e assinou alguns dos maiores fenómenos de vendas da nossa história musical. Conhecido por ser frontal nas palavras, apaixonado e intransigente no futebol, bastante reservado na vida privada, hoje tiramos-lhe a armadura. Queremos perceber onde nasce esse filtro sem cedências, quem era o rapaz que cresceu e que se tornou neste homem que hoje vamos conhecer, como lida com as perdas dos companheiros de estrada, o que o faz rir longe das câmaras e no fundo vamos conhecer melhor Manuel Moura dos Santos. Seja muito bem-vindo aqui ao "Em 40 Minutos". É um gosto.

Olá, eu é que agradeço o convite da Rádio Observador, João.

Temos aqui uma longa conversa pela frente, com muitos planos para falar, mas desde já, Manuel, e permita-me esta ousadia, desconstruir esse homem, porque nós temos muito a imagem de um homem implacável, de poucos sorrisos, talvez até uma postura um bocadinho sisuda daquilo que conhecemos apenas e vemos só na televisão. Fora disso, é possivelmente uma pessoa muito ligada à família, daquilo que também sabemos, com os seus filhos. É realmente sisudo no seu dia a dia ou isso é algo que lhe tentaram colar também ao longo destes anos de televisão e não só, das suas performances também, que tem tido ao longo destes anos?

João, por norma, não. É claro, tenho os meus momentos, não passo a vida a rir ou com sorriso nos lábios, mas por norma, não. A exposição. Há muita gente que me pergunta, ainda hoje, se eu sou sempre assim e eu digo a brincar: "Eles pagam-me para isso, eu faço o papel". Não é exatamente assim também, tem a ver um bocadinho com o meu feitio, mas fora das câmaras. E mesmo hoje, eu já faço o "Got Talent", já fizemos 10 temporadas. As coisas mudaram imenso. O tempo do "Ídolos" e daquele direto à cabeça, sem filtros absolutamente nenhuns, morreu. Morreu aqui e morreu no mundo inteiro, não foi só aqui.

E tem consciência de que possivelmente muitas coisas que se calhar disse nessa altura, hoje, por exemplo, seriam altamente condonáveis ou impossíveis de se dizer?

Impossíveis de se dizer. Seriam impossíveis. Não tenho dúvida nenhuma sobre isso. As coisas mudaram muito. Hoje a ideia da inclusão não permite determinado tipo de expressões. Além disso, eu faço o "Got Talent" numa estação pública. É diferente de uma estação privada e portanto, eu faço aquilo, não sei, há mais de 10 anos. Nunca tive problema de queixa nenhuma, de nenhum concorrente eu ter dito isto ou aquilo. É claro que se não gosto, digo. Os parâmetros, as guidelines do "Ídolos", no princípio, eram extremamente, para os dias de hoje, violentas. Isso hoje já não acontece.

E teve algumas repercussões depois com alguns casos que aconteceram. Não digo diretamente consigo, mas falava-se na altura de algumas polémicas que se calhar hoje, por exemplo, teriam outro tipo de eco ou mediatismo, não é?

Provavelmente, eu admito que sim, mas eu nunca tive, nem a produtora do programa, tanto do "Ídolos" como do "Got Talent", que é a mesma, a Mantle Media, tiveram qualquer queixa, pelo menos com andamento, sobre mim. E as pessoas encontravam-me na rua com frequência e eu tive um caso de uma pessoa que disse: "Você é muito desagradável". Uma pessoa, uma senhora

Não disse nada. Uma pessoa nesta situação está sujeita a ouvir todo o tipo de opiniões, que eventualmente pode gostar ou pode não gostar. Não vou agora replicar. Eu disse: "Pronto, senhora, olhe, eu tenho imensa pena".

O facto de, por exemplo, falávamos aqui do Got Talent, trabalhar ao lado de uma pessoa como a Inês Aires Pereira, ajuda também a desconstruir um bocadinho esse boneco do Manuel Moura dos Santos mais durão, entre aspas?

Já com os outros meus colegas era um bocadinho assim, mas a Inês é uma força da natureza. Independentemente daquilo que se possa achar dela como comediante, e eu adoro-a, ela tem um excelente ouvido. Mas excelente mesmo. Ela tem noção do que é cantar. A mãe é cantora amadora na área clássica. E ela tem voz, tem noção de afinação, tem colocação da voz, respiração, de tempo e, portanto, torna as coisas mais fáceis. Ela é extremamente divertida e isso é contagiante pra todos, não só pra mim, mas a Filomena também é uma figura. Eu gosto imenso dela. O Rui Massena é diferente, que é uma relação que já tivemos de trabalho. Eu fiz coisas com o Rui Massena ao longo dos anos, sobretudo quando ele era o mestre residente da Orquestra do Funchal. Fiz três ou quatro concertos com ele.

Não, há uma relação muito boa, é uma dinâmica boa.

Num painel de jurados, há que haver uma boa dinâmica, sermos divertidos, termos noção que estamos a fazer televisão. E portanto, aquilo é pra entreter as pessoas, não é pra nos entreter a nós. E a Filomena tem noção disso. Muita mesmo. Assim como a Inês Aires Pereira e o próprio Rui Massena. Acho que o painel funciona muito bem. Nós temos uma relação ótima e, portanto, isso facilita tudo.

Manuel Moura dos Santos, se fizessemos aqui um inquérito aos seus amigos mais próximos e à sua família, como é que eles acham que o iam descrever em três palavras?

Palavras como, sei lá, atencioso, doce, iam aparecer por lá em alguma dessas características? E estou a falar aqui das pessoas, nós, que não o conhecemos além deste mundo da televisão.

Eu tenho amigos muito fiéis e muito leais. Eu conheço milhares de pessoas, umas melhores, outras pior, mas amigos, amigos, que eu vou à casa deles, eles vêm à minha, eu não tenho propriamente nenhum exército de amigos, nem quero. E esses amigos, é uma relação muito afetiva, nós gostamos muito de estar juntos e, portanto, não sei se eles diriam doce. Talvez uma mistura. Talvez a minha mulher. Isso é uma relação diferente