Pela milésima vez, vimos Neymar ter chiliques depois de uma partida de futebol. É difícil ver as imagens de Neymar pulando furiosa e desajeitadamente na porta do vestiário enquanto xinga torcedores do Remo de forma histérica sem tentar elaborar por que um homem que já foi considerado um dos melhores jogadores do mundo se comporta recorrentemente nesses termos: descontrolados, vulgares, prepotentes, baixos.
A masculinidade vigente carrega em si um componente bastante ridículo de infantilidade, verdade, mas Neymar extrapola todos os limites do aceitável ao protagonizar pirraças e chiliques sempre que alguma coisa o incomoda. Passar soberanamente pelo desconforto é sinal de amadurecimento e Neymar está mais distante desse lugar do que Ulisses, o herói da Odisseia, jamais esteve de Ítaca, a ilha da qual era rei e de onde saiu para retornar só depois de 20 anos.
Com o lançamento do filme de Christopher Nolan, uma releitura do clássico escrito supostamente por Homero há três mil anos, talvez valha recorrermos ao protagonista dessa história épica para falar sobre Neymar.
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Ulisses é obrigado a deixar sua casa, a ilha de Ítaca, para ir lutar em Troia. Considerado o mais astuto dos guerreiros, é de Ulisses (ou Odisseu, como também é conhecido) a ideia de fazer o cavalo de Troia, a artimanha que coloca fim na guerra depois de 10 anos de batalhas sangrentas. A "Odisseia" é um spinoff dessa história, contada na "Ilíada", que também teria sido escrita por Homero há quase três mil anos. Com a guerra terminada, Ulisses começa a voltar para casa, uma viagem que deveria levar no máximo dez dias.
Mas Ulisses demora dez anos nessa jornada de volta para casa. Pelo caminho, precisa enfrentar desafios, monstros, vícios, tentações, mares que, comandados pelo Deus dos mares, Poseidon, se revoltam para impedir que ele faça o caminho até Ítaca, onde Penélope, sua mulher, e Telêmaco, seu filho, o esperam.
A viagem de Ulisses é uma viagem para dentro de si. Ele precisa encarar os fantasmas dos crimes que cometeu na guerra, precisa se reconciliar com sua alma, precisa descer do pedestal, precisa ir ao mundo dos mortos encontrar Aquiles, o herói que trocou sua vida pela glória eterna, e escutar de Aquiles que ele tudo daria por mais um dia entre os vivos, que estava arrependido de viver em nome de glórias eternas quando o que importava era mais um dia sob o Sol ao lado de quem amava.
Em outro desafio que encontra pelo caminho de volta para casa, para vencer os ciclopes, monstros imensos de um olho só, Ulisses precisa dizer em voz alta que seu nome é Ninguém. Só assim, só quando se coloca como qualquer outro, é capaz de escapar. Mas, já seguro em sua embarcação, Ulisses tem um momento Neymar e, olhando para os monstros de um olho só que ficaram em terra, grita orgulhosa e espalhafatosamente que seu nome é Ulisses, o rei de Ítaca. Deixa claro que foi ele, Ulisses, que os venceu. É nessa hora que Poseidon então determina que Ulisses não chegará a Ítaca. É a partir desse momento que o herói cava com as próprias mãos os próximos anos de sofrimento e de solidão.
Só no final do livro (eu ainda não vi o filme), Ulisses finalmente se reconcilia com a humildade e é capaz de amadurecer. Ele então sai do papel de guerreiro implacável e assume o de contador de histórias, o de marido e o de pai. Narra a sua própria vida e, ao narrar, reencontra sua alma.
Neymar é um menino preso à barra da calça do pai. Não sabe quem é, não sabe quais seus reais desejos, não consegue enxergar nada além dos parças, das festas e de seus brinquedos. Ao contrário de Ulisses, que pelo menos sabia para onde estava voltando, Neymar não sabe para onde ir. Fala como criança, age como criança, berra como criança, esperneia como criança. Crianças têm o direito de agirem assim. Estão descobrindo a vida e conhecendo limites. Homens não têm esse direito. Homens que se comportam como moleques são o grande problema do mundo. Sempre foram e seguem sendo. Quem nasceu para Neymar só chega a Ulisses se tiver a coragem de se perder de si mesmo.
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