Não é à toa que a camiseta da seleção brasileira foi sequestrada por uma ideologia e mitologia de ordem fascista e colonialista.
Essa parece ser a faceta do que se tornou nosso futebol: aquilo que era essencialmente nosso, que dialogava com nossas origens, com nosso multiculturalismo e miscigenação, passou a se tornar medíocre por apenas tentar incorporar uma cultura e metodologia estritamente estrangeira - especificamente europeia. O futebol atual tem como principal engrenagem de mediação o domínio europeu. A identidade de nosso "ludopédio", de características sul-americanas e ginga africana, mas com a nossa assinatura, foi cooptado pela organização tática europeia e seu jeito de jogar.
Flávio não se ajuda e fez questão de cutucar a onça
Nem os terreiros escapam da violência policial na BA
O epítome desse engendramento aparece como sintoma no último jogo do Brasil contra a Noruega na Copa do Mundo de 2026. A antecipação de quem deveria cobrar um pênalti em jogo tão importante já estava determinada para um volante; e isso diz tudo. Nada contra o jogador que bateu e errou, que já provou ser ótimo no que faz. Mas eu me refiro aqui à mentalidade europeia que se apoderou da seleção desde 2006. A estruturação do jogo no nosso país, não só na seleção, mas nos campeonatos como um todo, desde as "peneiras" de jogadores nas categorias de base, tem sido em torno dessa figura cabisbaixa que é a do volante. É o cara que corre pra lá e pra cá e de vez em quando faz um bom passe. Nunca é um Zico, um Raí, um Rivelino, nunca será. E essa forma de jogo vem de um lugar de servidão ao poder. Pois esse nunca foi o verdadeiro jogo do Brasil. Passamos a não mais formar jogadores de meio campo que carregam de fato a bola, que pensam a jogada, organizam o time, e têm aquele toque de craque. O motivo disso vem de muitos fatores, mas principalmente por conta do Brasil ter se tornado fonte de mão de obra para os europeus no quesito "volante" & outros. O dinheiro foi determinando através dos empresários no país e fora dele o caminho para qual tipo de jogador eles desejassem. Nós baixamos a bola e a cabeça pra simplesmente tocar o jogo da vida assim.
A partir disso, o jogo do Brasil nas copas se rendeu a esse "movimento". Em 2006, foi a abaixadinha de Roberto Carlos na falta derradeira que levou a França a fazer um gol. Esse tal Roberto Carlos - o menos famoso, até hoje incensado pela mídia brasileira e mundial, não sei por qual motivo - se abaixa para amarrar suas chuteiras ou ajeitar a meia, enquanto o jogador francês que ele deveria estar marcando faz o gol.
Em 2014, vem o inédito e primeiro gol contra em uma abertura de Copa de uma seleção jogando em seu próprio país. É ou não é uma autossabotagem? De lá pra cá a coisa continuou e viemos perdendo todas para europeus. Coincidência?
Obviamente que não. A subserviência à mentalidade de jogo europeu esconde a subserviência à mentalidade e cultura colonial. Achamos que não somos bons o suficiente.
Eu mesmo embarquei nessa de "técnico estrangeiro" no Brasil. 'Todas seleções quase já usaram, porque não aqui?' Pois é... porque aqui a mentalidade em se trazer um treinador de fora é sintomática e não um esforço de natureza humilde e sinalizadora de vitalidade.
O Brasil acha que é o mais forte porque se acha o mais fraco. Lembram-se do bordão "Mostra tua força, Brasil!", de 2014? Pois é, ultimamente vemos um Brasil forçadamente e com muito ressentimento querer mostrar sua força. Se quer ser forte é porque no fundo se tornou fraco. Ou melhor, porque se acha fraco. A arrogância se mostra dessa forma. Por se achar tão pequeno, deve mostrar grandeza. O "menino" e pequeno arrogante Ney é o nosso maior exemplo.
Voltando à ideia do volante que vai bater pênalti, a imperativa ordem - consciente e inconsciente - que tem habitado o imaginário futebolístico brasileiro é a de que a principal peça no futebol moderno é o volante. Portanto, praticamos o futebol de volantes desde 2006. Ainda que em 2006 contássemos com uma geração estupenda de craques, aos quais não podemos mais contar, a mentalidade de jogo já era essa. E tal cultura tem como motor o velho e conhecido dinheiro, bufunfa, capital. Não é que nós vendemos. Longe de querer propor um clichê. É que mesmo que tenhamos amor ao jogo e respeito aos torcedores, a subserviência é peça chave nesse jogo do capital. A linhagem de jogadores que passaram a jogar fora do país precocemente - alguns em que os clubes europeus compram seus direitos, como jovens promessas, geralmente entre 16 e 17 anos - vem desde muitos anos antes de 2006.
Sequestraram nosso futebol, e agora em 2026 querem novamente sequestrar nosso país. Fiquemos ligados. Temos problemas maiores a resolver até podermos voltar a sonhar com futebol; desde as eleições já próximas, como uma reestruturação de um país que clama por justiça social.
O ressentimento que assola os nossos jogadores (além de vir de um afeto engendrado de forma política e social por aqui) esconde uma sabotagem inconsciente. Nos sabotamos e nos autodestruímos continuamente, talvez, simplesmente porque perdemos nossa confiança, por conta de um reinado de estilo europeu ao qual, no fundo de nosso Inconsciente, não queremos nos render.
É triste constatar desde agora que se mantivermos essa mentalidade, se continuarmos com um técnico e uma mentalidade a la europeia, daqui quatro anos a derrota é garantida.
E isso é só o começo do fim. Um outro mundo mostra seus sinais, dado que a política norte-americana tenta enfiar também goela abaixo dos brasileiros e do mundo seu poder capitalista opressor. Na própria Copa, Trump liga para o presidente da FIFA para dar a ordem autocrática de retirar um cartão vermelho de um dos jogadores dos EUA, cuja "solicitação" é prontamente aceita.
Aqui, sofremos com a possibilidade contínua de um golpe de Estado da extrema-direita, com participação sempre direta do governo dos EUA. No Brasil, a gênese autoritária e colonialista se impõe de diversas formas, inclusive no futebol. Às vezes, de modo muito disfarçado e deslocado. Claramente servindo aos ditames do capital. Como exemplo, quando após a derrota, dois "jornalistas" dão uma ordem para um jogador brasileiro, durante uma entrevista, a um Casemiro profundamente desolado para que ele dirija algumas palavras às crianças brasileiras por conta da derrota. Enquanto ele chora copiosamente, a jornalista constrangedoramente acredita que ele tem o dever de fazer isso. Cena horrorosa. A pseudo jornalista que assim age, opera inconsciente seguindo os ditames da linguagem do imperialismo europeu e do capital.
Esses jogos de linguagem se mostram muito nos nossos sonhos e pesadelos noturnos. O sonhar noturno é o palco onde se encenam nossas dores, desejos e traumas. Um esporte como futebol não é diferente. Tal como os sonhos que temos à noite, em que fecharmos os olhos da consciência, a Copa do Mundo é o cenário perfeito, o palco-mundo e lugar onde se digladiam diversas nacionalidades em um movimento sublimatório (cada um com seus dramas também).
Esse lugar é, por excelência, um lugar privilegiado por onde projetamos nossos principais conflitos e dramas. Muitos ainda, infelizmente, inconscientes.
A cena derradeira e triste de Neymar tentando se mostrar superior a um goleiro europeu que o venceu, além de expressar mais uma vez a mentalidade patética de um jogador com uma história lamentável, demonstra cabalmente a tese aqui apresentada: é o ato final e desesperado de uma pessoa que deseja resolver egoística e narcisisticamente uma contínua e bizarra sensação de inferioridade frente aos europeus.
A aceitação deve ser a da perda, e não a de comportamentos como os desse pequeno "senhor" ex-jogador. O máximo que podemos fazer nesse caso é termos compreensão sobre o fenômeno, dado que nele está vinculado ao que está em nós ainda: processos traumáticos transgeracionais e inconscientes