Na indústria norte-americana é comum vermos grandes atores como criadores dos projetos que estrelam no cinema, na TV e, mais recentemente, no streaming. No Brasil, porém, isso ainda é uma novidade. A forma como o audiovisual se solidificou por aqui ajuda a explicar essa diferença, já que tudo, durante décadas, girou em torno da Globo, sem espaço para produções independentes.
Esse cenário tem apresentado pequenas mudanças com a consolidação das plataformas de streaming no Brasil e o fim da era dos longos e exclusivos contratos que a Globo mantinha com uma parte considerável dos atores. Com mais possibilidades de trabalho, os atores já não veem a Globo como prioridade e enxergam o streaming como uma porta para realizar produções que não seriam abraçados pela maior TV aberta do país.
Sabendo do poder que a concorrência exerce sob os talentos e ciente que os grandes atores desejam espaço para produzir os próprios projetos, a Globo se tornou mais flexível e passou a olhar com mais atenção as propostas de seus contratados. "Jogada de Risco", nova série da Globoplay criada por Cauã Reymond, nasce desse movimento.
Quatro anos de silêncio e dois meses de presença
Explorando o submundo dos bastidores do futebol, "Jogada de Risco" não faz concessões para agradar ao público. Sem qualquer maniqueísmo ou pudor, a série narra com crueza e precisão o que acontece quando os jogadores estão longe dos holofotes. Sexo, fetiches, drogas, manipulação midiática, puxadas de tapete, tudo é mostrado sem romantismo.
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Em parceria com os roteiristas Thiago Dottori e Sofia Maria, Cauã Reymond conseguiu criar uma história visceral e muito diferente do que estamos acostumados a ver na tela da Globo. Tão importante quanto essa originalidade é o fato de Cauã se preocupar em não concentrar todas as atenções em seu personagem, o ex-jogador e atual agente esportivo Maurício. Mesmo sendo uma das mentes criativas por trás de "Jogada de Risco", o ator deu espaço para todos do elenco brilharem. É o caso de Juan Paiva, finalmente, conseguiu um papel que foge ao estereótipo de moço sofrido que ele encarnou em várias novelas.
"Jogada de Risco" consagra a maturidade artística de Cauã Reymond e prova que a Globo precisa dar mais espaço para projetos idealizados pelos talentos que tem em casa. Sem medo de chocar e sem concessões ao moralismo, a série deixa claro que o público brasileiro está mais do que pronto para narrativas complexas, adultas e sem filtro. Se "Jogada de Risco" é o cartão de visitas dessa nova fase da Globoplay, fica o recado para o mercado: dar voz e autonomia criativa aos talentos não é apenas uma estratégia de retenção, mas o único caminho possível para continuar relevante.
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