O curta-metragem A Casa de Dona Carlota terá sua primeira exibição pública no Festival do Rio 2026. Dirigido e roteirizado por Lili Fialho e Bruna Linzmeyer, o filme narra a história de Dona Carlota Rezende, dirigente e treinadora do Primavera Atlético Clube, equipe feminina que funcionava na própria casa da personagem, em Pilares, no Rio de Janeiro, no início da década de 1940. A produção chega ao festival como o primeiro passo de uma trajetória prevista para alcançar festivais nacionais e internacionais e, posteriormente, plataformas de streaming.

Baseado em pesquisa histórica de Aira Bonfim, o filme se volta para um período pouco conhecido da história esportiva brasileira. Nas décadas de 1930 e 1940, o futebol praticado por mulheres conquistava público e começava a buscar espaço profissional, enquanto a pressão do Estado Novo e de setores moralistas da imprensa aumentava. Nesse ambiente, o Primavera Atlético Clube se tornou mais do que um time: era um espaço de convivência, treinamento e autonomia para mulheres que encontravam no futebol uma possibilidade de romper com os limites impostos pela sociedade da época.

No centro da trama está a tentativa de Carlota de levar sua equipe para uma excursão internacional. Para isso, ela negocia com o empresário argentino Afonso Doce, em uma iniciativa que representa tanto uma ambição esportiva quanto um gesto de independência. A história, porém, seria interrompida de forma brutal. Em 1941, Carlota foi presa pela Delegacia de Costumes, e a sede do Primavera foi fechada. Três meses depois, o governo de Getúlio Vargas publicou o decreto-lei que proibiu às mulheres a prática de esportes considerados incompatíveis com sua natureza. A proibição do futebol feminino permaneceu por cerca de quatro décadas, até a regulamentação em 1982.

A Casa de Dona Carlota é estrelado por Ingrid Trigueiro, no papel-título, e também reúne Tay O’hana, Luisa Mangini, Diego Pallardo e Bruna Linzmeyer, além da participação especial de Sandra Sá. Com mais de três décadas de carreira no cinema, no teatro e no audiovisual, Ingrid tem no currículo filmes como Central do Brasil, Bacurau, Paterno, Cura-me, Vida entre Folhas, Malaika, Manas e Rebento. Para Bruna Linzmeyer, o projeto representa uma nova etapa profissional: depois de 16 anos de carreira como atriz, ela estreia na direção e no roteiro de um filme.

A escolha da personagem também dialoga com a trajetória da própria Bruna, que há quase uma década se dedica à cultura do futebol de mulheres e, desde 2018, desenvolve projetos ligados ao fortalecimento da modalidade. Ao lado de Lili Fialho, diretora que já realizou trabalhos sobre futebol feminino, ela transforma essa pesquisa em uma obra de ficção voltada à preservação da memória de mulheres que tiveram suas trajetórias apagadas da história oficial do esporte.

A estreia no Festival do Rio marca o início da circulação de A Casa de Dona Carlota por festivais brasileiros e internacionais. A produção também prevê uma chegada às plataformas de streaming em 2027. O lançamento ocorre às vésperas de outro momento histórico: o Brasil receberá, pela primeira vez, a Copa do Mundo Feminina da FIFA, estabelecendo um contraste entre a visibilidade atual da modalidade e o período em que mulheres eram impedidas por lei de jogar futebol.

Produzido por Mayra Faour Auad e Gabrielle Auad, da MyMama Entertainment, o curta pretende recolocar Dona Carlota no capítulo inicial dessa história. Mais do que reconstituir uma trajetória esportiva, o filme recupera a memória de uma mulher que enfrentou as convenções de seu tempo e ajuda a lembrar que a presença feminina no futebol brasileiro é anterior à sua regulamentação e às conquistas recentes da modalidade.

As exibições de A Casa de Dona Carlota serão nesta terça-feira, 7, às 21h45 na Estação Gávea; na quarta (8), às 16h30, no Cine Odeon (com sessão seguida de debate); e na sexta (9), às 21h45, no Cinesystem Belas Artes Botafogo