O dia 18 de outubro é uma data especial para quem vive a medicina. É celebrado o Dia do Médico, em homenagem a São Lucas, considerado o padroeiro dos médicos. E, no Brasil, a data também pode ser lembrada por uma curiosa relação entre o futebol e a medicina.

Ao longo da história, alguns jogadores brasileiros conseguiram conciliar a rotina dos gramados com livros, aulas, provas e plantões. Entre eles estão três nomes que marcaram gerações como Tostão, craque do Cruzeiro e da Seleção, Sócrates,  Afonsinho, Márcio Guerreiro e Marquinhos. Mais do que craques, os três chegaram à formação médica e levaram para a profissão experiências acumuladas durante a vida no esporte.

São Lucas é tradicionalmente associado à medicina e é lembrado como médico no Novo Testamento. É justamente por sua celebração litúrgica em 18 de outubro que a data se tornou, no Brasil, o Dia do Médico.

Em Minas Gerais, a história de Eduardo Gonçalves de Andrade, o Tostão, é um dos exemplos mais emblemáticos dessa combinação. Ídolo do Cruzeiro e campeão mundial com a Seleção Brasileira em 1970, Tostão - que completa 80 anos em janeiro -  encerrou a carreira precocemente, aos 26 anos, após problemas físicos. O fim da trajetória nos gramados, porém, abriu espaço para outro projeto que já fazia parte de sua vida.

O ex-jogador cursou Medicina na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e se formou em 1981. A própria Faculdade de Medicina da universidade registra Tostão entre seus antigos alunos ligados ao futebol.

Depois da graduação, ele chegou a trabalhar como médico e também foi professor de ciências médicas. Mais tarde, consolidou-se como um dos mais respeitados comentaristas e cronistas esportivos do país. Dr. Eduardo se especializou em oftalmologia, além de ter se dedicado também à medicina psicossomática e psicanálise

Se há um jogador brasileiro cuja imagem ficou definitivamente associada ao título de doutor, esse é Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, o Doutor Sócrates.

Ídolo do Corinthians, capitão da Seleção Brasileira nas Copas de 1982 e 1986 e um dos principais nomes da chamada Democracia Corinthiana, Sócrates também encontrou tempo para estudar Medicina enquanto construía a carreira profissional no futebol.

Ele começou a carreira no Botafogo de Ribeirão Preto e chegou a recusar propostas para deixar o clube enquanto não concluísse a faculdade. A formação médica era um projeto que levava a sério. Em entrevista ao Esporte Espetacular em 1981, quando já era jogador da Seleção, Sócrates falava sobre o desejo de seguir na medicina e chegou a cogitar especializações em radiologia e ortopedia.

O apelido de "Doutor", portanto, não era apenas uma brincadeira relacionada ao jeito elegante de jogar ou à sua personalidade. Era também resultado de uma formação acadêmica que o acompanhou durante toda a carreira.

No campo, Sócrates ficou conhecido pelos passes precisos, pela inteligência e pelos famosos toques de calcanhar. Fora dele, tornou-se uma das vozes mais marcantes do esporte brasileiro na defesa da democracia e da participação dos jogadores nas decisões do clube. Ele, que era irmão do também ex-jogador Raí,  morreu em 4 de dezembro de 2011, aos 57 anos, no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. A causa da morte foi choque séptico (infecção generalizada) decorrente de uma infecção intestinal.

Outro personagem singular dessa história é Afonsinho, que também conseguiu conciliar a carreira de jogador profissional com a faculdade de Medicina.

Ídolo do Botafogo e personagem importante na luta pela liberdade dos jogadores em uma época em que os clubes tinham grande controle sobre a carreira dos atletas, Afonsinho começou o curso de Medicina em 1966. Dividia o tempo entre as aulas, os movimentos estudantis, os plantões e o futebol profissional.

Formado em Medicina, ele chegou a se especializar em Pediatria e posteriormente trabalhou na área de reabilitação. Sua trajetória profissional também passou pela psiquiatria e por projetos que utilizavam esporte e lazer como ferramentas de tratamento.

Afonsinho ficou marcado não apenas pelo futebol, mas também pela postura contestadora. Na década de 1970, tornou-se símbolo da luta pelo chamado passe livre, direito que permitia ao jogador ter mais autonomia para decidir os rumos da própria carreira. A história do craque acabou inspirando a canção "Meio de Campo", de Gilberto Gil, que faz referência a ele e a Tostão.

Décadas depois de Tostão, Sócrates e Afonsinho, outro jogador decidiu mudar completamente de profissão. Márcio Luís Marques Guimarães, o Márcio Guerreiro, teve uma carreira de cerca de 14 anos no futebol e passou por clubes como Flamengo, Cruzeiro, Ponte Preta e Guarani. Depois de deixar os gramados, em 2013, começou a cursar Medicina.

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A nova carreira ganhou um capítulo dramático em 2020. Em meio à pandemia de Covid-19, sua formatura foi antecipada para que pudesse atuar na linha de frente do atendimento hospitalar. Ele trabalhou no Hospital Geral de Nova Iguaçu, o Hospital da Posse, na Baixada Fluminense. Atualmente, ele é vereador e presidente da Câmara de Nova Iguaçu.

A história de Marquinhos, ex-volante do Internacional, também é marcada por uma decisão radical. Marcos Dall'Oglio defendeu o Inter entre 1984 e 1988, integrou uma equipe que tinha nomes como Taffarel, Mauro Galvão e Ruben Paz e foi campeão gaúcho em 1984. Também passou por Figueirense e Atlético-PR.

Enquanto jogava, cursava Medicina. Aos 24 anos, porém, decidiu encerrar a carreira nos gramados para se dedicar integralmente aos estudos. A escolha não foi simples: significava abrir mão de uma carreira profissional no futebol para apostar em uma vocação que o acompanhava desde a infância