Quando Mônica Hickmann olha para o início da própria história no futebol, a lembrança não é de um centro de treinamento ou de uma categoria de base estruturada. É da rua, em Gravataí, no Rio Grande do Sul, onde cresceu brincando e jogando no meio dos meninos. Aos 39 anos, aquela menina apaixonada pelo esporte disputa uma das principais ligas da Europa.
Mônica começou no Internacional, passou pelo interior de São Paulo, viveu uma longa experiência na Áustria quando a modalidade europeia ainda tinha características amadoras, voltou ao Brasil, jogou nos Estados Unidos, Austrália e Espanha e vestiu a camisa da Seleção Brasileira em três Copas do Mundo. Desde 2019, encontrou no Madrid CFF o lugar mais duradouro de uma carreira marcada justamente por mudanças.
Em entrevista exclusiva à VEJA, a defensora percorreu mais de duas décadas de futebol e falou também sobre o que ainda pretende construir. No presente, quer ajudar o Madrid CFF a brigar pelas primeiras posições da Liga F e sonha em levar o clube à Champions. Para o futuro, já experimentou trabalhos como treinadora, scouting e coordenação e prepara um projeto próprio ligado à modalidade. “Meu papel hoje acho que é esse, continuar desfrutando e ajudar quem ainda sonha chegar e quem ainda sonha dar o primeiro passo”, resumiu.
O futebol apareceu de maneira natural na infância. Mônica conta que cresceu em uma época em que brincar na rua fazia parte da rotina e o esporte dividia espaço com diferentes atividades. A Copa do Mundo masculina de 1994, quando o Brasil conquistou o tetracampeonato, também ficou marcada na memória.
Um vizinho chamado Maurício foi uma das primeiras pessoas a ensiná-la a jogar. Vieram os passes, os primeiros fundamentos e, depois, muitas partidas no meio dos meninos. “Eu nunca tive medo, sempre quis mesmo jogar. Eu sempre queria estar junto, me divertia também. Sofria muito, claro, preconceito. ‘Ela não sabe jogar’, ou os vizinhos: ‘O que tu está fazendo aí? Vai para casa lavar uma louça, vai lavar tua roupa’. Tudo isso eu vivi dentro dessa expectativa de ser jogadora um dia”, contou.
O caminho até um clube apareceu por intermédio de Michele e Kelly, duas amigas gaúchas que já jogavam no Internacional. Mônica fez um teste e recebeu a oportunidade de começar na escolinha do clube. O problema era sustentar a rotina: eram cerca de duas horas de ônibus para ir, outras para voltar, além dos custos e da necessidade de conciliar o futebol com os estudos.
A mãe avisou que financeiramente seria difícil continuar. Justamente naquele período, porém, Mônica foi escolhida para subir ao Sub-17. A oportunidade mudou o rumo da história. “Minha mãe falou: ‘No próximo mês tu vai ter que dar o sangue porque não está dando mais para pagar’. E aí eu tive a sorte que nesse último mês fui escolhida para subir para o Sub-17 do Inter.”
Entre 2004 e 2006, Mônica viveu outra etapa determinante da formação no Marília. Mais uma vez, Michele e Kelly participaram da mudança. Aos 17 anos, ela deixou o Rio Grande do Sul sem salário ou ajuda de custo. O acordo envolvia moradia e estudos. “Foi na cara e na coragem. Não tinha ajuda de custo, nada. Era uma promessa de terminar a escola e universidade.”
Mônica precisou aprender a morar longe da família, dividir responsabilidades e organizar uma rotina adulta ainda muito jovem. Seis meses depois, a irmã também foi para Marília, e as duas tiveram a oportunidade de jogar juntas.
Foi também nesse período que Mônica chegou à Seleção e tentou conciliar o futebol com a faculdade de enfermagem. A universidade, segundo ela, não conseguia acomodar as ausências provocadas pelas convocações. Provas e trabalhos perdidos acabaram levando-a a trancar o curso.
Marília também produziu uma transformação que definiria todo o restante da carreira. Mônica não era zagueira. “Eu era atacante, meio atacante, meio-campo, qualquer coisa menos zagueira. E eu metia gol, hein? Eu era goleadora nas minhas escolinhas.”
Quando o time perdeu duas defensoras durante a temporada e não havia reposição, o treinador perguntou quem poderia assumir a função. Mônica já havia atuado como fixa no futsal e se ofereceu. “Eu falei: ‘Eu jogo’. E aí foi. Não teve mais volta.”
Décadas depois, a mudança permanece. Ela ainda alternou funções ao longo da carreira, atuando no meio-campo, como lateral esquerda e direita, mas construiu a maior parte da trajetória como defensora. Para Mônica, duas características são fundamentais na posição: leitura e comunicação.
“A zagueira precisa se comunicar, ela precisa falar. Ela não precisa ser a voz que comanda, mas pode ser a voz que indica, que orienta. Acho que a comunicação é uma das coisas mais importantes. Leitura de jogo e comunicação.”
Em 2007, veio a primeira grande mudança internacional. Mônica foi para o SV Neulengbach, na Áustria, onde encontrou Rosana e Célia, brasileiras que já estavam adaptadas ao país.
O início teve roteiro improvável: Mônica chegou durante a pré-temporada e assistia a um amistoso quando recebeu a oportunidade de entrar por alguns minutos. Na prática, transformou aquela participação em um teste. “Acho que foram os melhores 15 minutos da minha vida. Dei passe para gol, defendi bola, saí jogando. Eles se apaixonaram na hora e falaram: ‘A gente quer ela’.”
O período de inscrições, porém, já havia terminado. Ela passou cerca de seis meses treinando antes de assinar contrato em julho. Na Áustria, conquistou títulos nacionais e teve as primeiras experiências na Champions League. Enfrentou equipes como Arsenal e Lyon e chegou, com o Neulengbach, às fases mais avançadas da competição europeia.
Para ela, disputar a Champions produz uma sensação comparável à de uma Copa do Mundo. “É como se estivesse num campeonato muito exclusivo, onde realmente estão os melhores da Europa, de todos os países. É uma atmosfera diferente. Eu compararia com um Mundial como sensação.”
Apesar do sucesso, Mônica queria um ambiente mais profissional e competitivo. Havia também uma questão relacionada à Seleção. Segundo ela, naquele período ouviu de treinadores que teria dificuldades para voltar a ser convocada enquanto permanecesse na Áustria.
“Meu desejo era mais, meu desejo era crescer mais e naquela época ainda era muito amador. Não tinha aquela ideia de ‘vamos ser melhores mesmo e chegar mais além na Champions’. Eu queria mais que isso.”