A partir do Mundial sub-20, em setembro, todas as equipes que participam de competições femininas organizadas pela Fifa deverão cumprir novos critérios de representatividade de gênero nas comissões técnicas. A medida, que exige uma mulher como treinadora principal ou auxiliar e ao menos uma integrante feminina na equipe médica, passará a valer já nos próximos torneios da entidade. Em entrevista exclusiva a O TEMPO SPORTS, a técnica do Atlético, Fabiana Guedes, avaliou a mudança como um marco histórico para corrigir o atraso vivido pela modalidade nas últimas décadas.

A estreia das novas regras será na Copa do Mundo Feminina Sub-20, disputada na Polônia, em setembro. Na sequência, as exigências serão aplicadas na Copa do Mundo Feminina Sub-17, no Marrocos, em outubro, e pela Copa dos Campeões Feminina da Fifa, marcada para janeiro de 2027, nos Estados Unidos. As mesmas determinações também estarão em vigor na Copa do Mundo Feminina de 2027, que será disputada no Brasil entre 24 de junho e 25 de julho de 2027.

Ao analisar a nova diretriz, a treinadora afirma que o crescimento do futebol feminino sempre esteve ligado a políticas que estimularam ou obrigaram mudanças estruturais. Na avaliação dela, a obrigatoriedade imposta pela Fifa segue a mesma lógica de outras medidas que foram fundamentais para o desenvolvimento da modalidade, como a exigência de clubes manterem equipes femininas.

“Eu acho que é por conta do atraso do futebol feminino. A gente ainda vive muitas consequências desse atraso e deixa de fazer várias coisas justamente porque a modalidade ficou muito tempo sem o desenvolvimento que merecia. Essa obrigatoriedade vai ser muito importante para o futebol feminino e para nós, mulheres, conseguirmos ocupar mais espaços. Tudo o que a gente tem vivido no futebol feminino também foi obrigatório”, contextualizou a treinadora do Galo. 

A iniciativa faz parte de um conjunto de ações da Fifa para ampliar a participação feminina em funções de liderança dentro do futebol. No anúncio da medida, a diretora de futebol da entidade, Jill Ellis, destacou que a presença de mulheres nas áreas técnicas ainda está longe do ideal. “Simplesmente não há mulheres suficientes no ramo do futebol. Precisamos fazer mais para acelerar a mudança, criando caminhos mais claros, ampliando as oportunidades e aumentando a visibilidade delas à beira do campo”, afirmou a dirigente. 

Os números da última Copa do Mundo Feminina reforçam o diagnóstico da entidade. Na edição de 2023, disputada na Austrália e Nova Zelândia, apenas 12 das 32 seleções eram comandadas por treinadoras mulheres.

Fabiana construiu carreira no esporte em um período de pouca visibilidade, escassos investimentos e oportunidades profissionais reduzidas. Se hoje a modalidade vive um processo de expansão, com crescimento de público, maior exposição na mídia e aumento da profissionalização, a treinadora acredita que isso resulta de avanços institucionais que abriram portas para atletas e profissionais. 

Nesse contexto, de acordo com a comandante do Atlético, a realização da Copa do Mundo no Brasil surge como um novo impulso para consolidar esse processo. Além da expectativa pelo legado esportivo, o torneio deve ampliar a visibilidade das mulheres em diferentes funções dentro do futebol, desde atletas e árbitras até integrantes das comissões técnicas.

Fabiana, que recentemente integrou a comissão técnica da seleção brasileira como auxiliar técnica a convite de Arthur Elias nos amistosos contra os Estados Unidos, entende que esse momento histórico também amplia sua responsabilidade como uma das referências da modalidade. 

Ao olhar para as meninas que hoje sonham em construir uma carreira no futebol, ela percebe um cenário completamente diferente daquele que encontrou quando iniciou sua trajetória. Segundo a treinadora, a principal transformação está na segurança de que o futebol feminino deixou de ser uma aposta incerta para se consolidar como uma carreira possível.

“Hoje o futebol feminino é uma profissão. Antigamente se falava muito que era algo muito incerto, mas isso já não existe mais. O futebol feminino de hoje é daqui para melhor. Se a gente já está vivendo o melhor momento da modalidade, ainda vamos conquistar muito mais nos próximos anos”, vislumbrou a técnica do Atlético. 

Para Fabiana, a nova geração cresce em um ambiente mais favorável, com referências, competições consolidadas e perspectivas que antes pareciam distantes. Embora reconheça os desafios, ela acredita que o futebol feminino vive uma mudança estrutural sem precedentes, e medidas como as da Fifa aceleram esse processo. 

Na visão da treinadora, ampliar a presença feminina nos espaços de decisão é uma conquista para as profissionais e um passo essencial para que meninas tenham exemplos concretos de que há lugar para elas dentro do esporte, seja dentro das quatro linhas ou na beira do campo