Ney Lopes
Advogado e jornalista
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Na manhã deste sábado (1º de agosto), o Financial Times publicou em manchete: “FIFA abandona plano de investimento de US$ 20 bilhões após reação negativa global”.
O projeto megalómano de americanização do futebol previa a venda de participação comercial nos grandes torneios da FIFA — incluindo a Copa do Mundo de seleções e o Mundial de Clubes — e envolvia diretamente o círculo da família Trump, por meio de Josh Kushner, irmão mais novo de Jared Kushner (genro do presidente Donald Trump e marido de Ivanka Trump). Uma subsidiária, avaliada em US$ 20 bilhões seria criada, seguindo-se a transferência de até um quarto dela a investidores institucionais, com o objetivo de revenda com lucro.
A iniciativa gerou fortes críticas, diante do risco de “privatização do futebol” e possível “enriquecimento de amigos da família Trump”.
Em 5 de dezembro de 2025, durante a cerimônia de sorteio dos grupos da Copa do Mundo 2026, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, sem explicação, entregou a Donald Trump o primeiro Prêmio da Paz da FIFA, elogiando suas “ações excepcionais e extraordinárias” em favor da paz e da unidade mundial — ato que, na época, já havia gerado controvérsia.
Houve quem argumentasse que o dinheiro injetado transformaria os clubes em empresas e permitiria choque de gestão capaz de atrair patrocínios milionários e futebol mais vistoso. O problema é que, “aberta a porta”, a pressão por resultados financeiros viraria prioridade. O comando passaria as mãos de quem tenha maior poder econômico. Afinal, o futebol, patrimônio cultural e social de bilhões de pessoas, foi construído por gerações de atletas, clubes e torcedores e não deve ser vendido em leilão.
Toda privatização impõe análise, caso a caso. O futebol não pode subordinar-se a vantagens financeiras, mas sim ao lucro social, aquele que beneficia os de menor poder aquisitivo, os miseráveis e os excluídos.Lucro social se mede através de indicadores reais: número de jovens de baixa renda que passam a treinar regularmente; redução da violência em comunidades onde o futebol se torna rotina; taxa de permanência escolar entre jovens vinculados a projetos esportivos; proporção de recursos aplicados em infraestrutura pública de base.
Cabe mencionar cenários de privatização do futebol ocorridos no Brasil. No Cruzeiro, Ronaldo Fenômeno adquiriu 90% das ações e adotou postura que gerou profunda insatisfação na torcida. Em abril de 2024, devolveu o clube à SAF (Sociedade Anônima do Futebol).
O Botafogo, após momentos de glória, mergulhou em uma profunda crise institucional e judicial, culminada com o afastamento do investidor norte-americano John Textor, que transferiu de forma irregular participações societárias do Clube para uma empresa desconhecida nas Ilhas Cayman.
A iniciativa privada não constitui solução milagrosa capaz de atender, por si só, aos interesses do futebol. É necessária a preservação do modelo atual, no qual a FIFA permaneça uma associação privada sem fins lucrativos de direito suíço, cujo controle está vinculado à adesão voluntária das 211 associações-membro, obrigadas a cumprir seus estatutos e regulamentos.
Por essas razões, a resistência global foi compreensível, diante da investida da FIFA. Ao entregar o futebol aos cofres do mercado, a entidade empurraria multidões a abrir mão do direito de viver a alegria coletiva do jogo, reduzindo tudo ao que os investidores decidissem liberar como sobra de seus lucros.
Ao longo da vida tive momentos significativos como político, advogado, professor. No jornalismo, a maior recordação foi ter ganho aos 17 anos o prêmio Esso regional, em 1962, pela publicação no jornal A ORDEM, de Natal, RN, da série de reportagens “A cidade por dentro”. Até hoje é a única premiação outorgada a um jornalista norte-rio-grandense, com matéria publicada na imprensa local.
Outros potiguares potiguares que ganharam o Prêmio Esso foram Humberto Pinheiro Borges, repórter internacional e investigativo do Jornal do Brasil, com textos sobre Cuba e o Caribe; Gildson Oliveira, 1990, com uma marcante série de reportagens sobre o “Rei do Baião, Luiz Gonzaga”, publicada no Diário de Pernambuco e Gaudêncio Torquato, que trabalhou no tradicional Jornal do Commercio (JC), do Recife (1966), onde fomos colegas de redação, período em que ele foi consagrado com a premiação do Prêmio Esso de Jornalismo.
Dedico a honraria do prêmio Esso, ao aprendizado com o jornalista português Manuel Carlos Chaparro (perseguido pelo regime salazarista em Portugal), que dirigiu o jornal A ORDEM, nos anos 60, a convite de D.
Eugenio Sales, transformando o periódico semanal em veículo de forte atuação no RN. Ele acumulou quatro distinções no Prêmio Esso, quando trabalhava na imprensa de Recife e São Paulo. Tornou-se professor doutor da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP) e presidente da Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação).
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