Professora de Educação Física e treinadora observa que enquanto os meninos são incentivados a jogar bola desde a infância, muitas meninas crescem sem o mesma oportunidade

Thayne defende maior participação das instituições esportivas e de ensino na formação de novas atletas; De acordo com a atleta, uma dificuldade recorrente no futebol feminino é que os projetos começam e, de repente, terminam (Arquivo Pessoal; Denny Cesare)

A falta de investimento dos clubes, a desigualdade de oportunidades e o preconceito ainda impõem obstáculos ao desenvolvimento do futebol feminino. Em Campinas, onde Guarani, Ponte Preta e Bonfim já tiveram equipes na modalidade, a dificuldade de manter projetos e oferecer condições adequadas às atletas permanece como um dos principais desafios.

A avaliação é de Thayne Vieira, professora de Educação Física, treinadora de futsal e ex-jogadora, que acompanhou de perto diferentes momentos da trajetória da modalidade na cidade. Em entrevista exclusiva ao Correio Popular, ela relembra sua passagem pelos clubes campineiros, analisa os entraves que limitam o crescimento do futebol feminino e defende maior participação das instituições esportivas e de ensino na formação de novas atletas.

Eu nasci em Campinas, no bairro Parque Brasília, onde tem um time muito bom do futebol amador, o Real Madrid. Desde pequena, comecei a jogar pela escola. Tenho um irmão cinco anos mais velho que me levava para a rua, às vezes sem minha mãe saber, para jogar bola comigo. Ele sempre me incentivou. Eu jogava com os meninos, seguindo aquele ditado popular de que é jogando bola na rua que se aprende a jogar. Com o tempo, minha mãe percebeu que eu estava levando aquilo a sério. A escola começou a participar dos Jogos Escolares Municipais, que também são muito importantes. Quando eu estava no ensino fundamental, pude disputar essa competição. Aos 13 anos, fui para o Guarani e comecei na escolinha. Cerca de seis meses depois, houve uma seletiva para o futebol profissional. Passei e comecei a jogar pela equipe profissional do clube. Depois, fui para o Bonfim, que na época tinha uma equipe feminina muito forte em Campinas. Continuei disputando campeonatos pelo Guarani, tanto no futebol de campo quanto no futsal, até 2015, quando o clube encerrou o futebol feminino. Naquele período, o Bonfim também era uma das poucas equipes da cidade que disputavam competições importantes. Hoje, o futebol feminino amador cresceu bastante em Campinas, mas quando eu era criança e adolescente, havia poucas oportunidades. Para disputar uma Liga Nacional ou o Campeonato Paulista, por exemplo, existiam poucos times. Os principais eram Guarani e Bonfim, que tinham uma rivalidade parecida com a de Guarani e Ponte Preta. Acabei indo para o rival. Pelo Bonfim, disputei a Liga Nacional, o Campeonato Paulista e outras competições. Conseguimos mais resultados no futsal, que tem um custo menor para as equipes femininas. No campo, é preciso ter mais atletas, transporte e uma estrutura maior. No futsal, o elenco é menor, o que torna a manutenção do time mais barata. Depois, fui jogar em Valinhos, porque Campinas já não tinha competições para mim. Fiquei lá por dois anos, até que a equipe também acabou. Essa é uma dificuldade recorrente no futebol feminino: os projetos começam e, de repente, terminam.

Porque ninguém quer gerir, dar continuidade ao projeto ou investir quando o dinheiro acaba. São sempre essas justificativas que eu escuto, infelizmente. Também joguei futsal por Hortolândia, no Campeonato Paulista. No campo, não tive mais contrato. Minha experiência no futebol amador inclui a Taça das Favelas, competição em que fui campeã em 2022, 2024 e 2025. Em uma das edições, depois de romper o ligamento cruzado anterior (LCA), recebi um convite para trabalhar como treinadora. A proposta era mostrar às meninas que elas poderiam continuar no esporte mesmo quando deixassem de jogar. Sou formada em Educação Física e dou treinos para equipes universitárias até hoje. Trabalho com times masculinos, mas prefiro o futebol feminino. Aceitei o convite porque achei importante mostrar que existe um futuro para as atletas também fora de campo. Em 2025, fui campeã como treinadora. Na edição deste ano, cheguei à final da Taça das Favelas, mas fiquei com o vice-campeonato.

Você falou da rivalidade entre Bonfim e Guarani. A Ponte Preta também teve futebol feminino, mas hoje existe um desinteresse evidente dos clubes de Campinas. Como inverter esse quadro?

Acredito que os clubes precisam entender que investir no futebol feminino pode fazer diferença para a instituição. É necessário acreditar que as mulheres também assistem ao futebol e que a prática esportiva tem importância para elas. Imagino que, dentro das diretorias, a primeira pergunta seja quanto dinheiro o futebol feminino vai trazer. Quando eu jogava, ouvia questionamentos como: por que fornecer uma van se a equipe vai gastar combustível? O que vocês vão oferecer em troca? Os dirigentes não consideravam que o time poderia levar o nome do Guarani para as redes sociais e dar visibilidade ao clube. Hoje, as redes sociais têm uma força muito maior do que tinham há 20 anos e podem ajudar a divulgar tanto o futebol quanto a própria instituição. Também questiono a ideia de que só clubes da Série A precisam investir na modalidade. É possível começar com uma estrutura mais simples, aproveitar instalações já existentes e até terceirizar parte do trabalho. Quando joguei pelo Guarani, por exemplo, a equipe chegou a atuar em Águas de Lindóia, a quase duas horas de Campinas. Também usamos o Brinco de Ouro em uma partida importante contra a Ferroviária. Treinávamos no Areião, e isso não era um problema. O que falta, muitas vezes, é abertura e espaço para o futebol feminino acontecer. Acredito que seria importante promover uma conversa aberta com as diretorias, para entender o que impede esses projetos de avançarem. Se a questão não for financeira, sinceramente, não sei qual é o motivo.

Você percebe um aumento do interesse do público pelo futebol feminino, inclusive entre os homens?

Houve um aumento muito grande de espectadores masculinos. É uma discussão que fazemos há anos. No começo, era difícil assistir ao futebol feminino e também jogar, porque faltavam estrutura, academias, preparadores físicos especializados e profissionais voltados para as necessidades das atletas. A diferença entre as partidas antigas e as atuais é muito grande, tanto na qualidade dos passes quanto na retenção da bola e na organização tática. Isso vem atraindo mais homens. Culturalmente, o futebol masculino sempre foi visto como um espetáculo, enquanto o feminino não recebia o mesmo reconhecimento. Mas, quando se abre espaço para profissionais interessados em trabalhar com a modalidade, a qualidade melhora. Hoje, equipes paulistas, cariocas e de outros estados têm estruturas importantes, capazes de formar atletas para a Seleção Brasileira. Não dependemos apenas de jogadoras que atuam na Europa. Muitas das nossas atletas jogam no Brasil. Essa evolução depende de oportunidades. É preciso abrir portas para preparadores físicos, treinadoras e outros profissionais. Eu, por exemplo, sou a única treinadora na universidade em que trabalho. Se houver mais espaço, a tendência é que esse processo continue. A presença dos homens nas arquibancadas também pode ajudar a comba ter o preconceito. Dentro de casa, o pai costuma ser uma referência importante para os filhos. Quando ele acompanha o futebol feminino, pode contribuir para que a modalidade seja mais valorizada pela família. Eu mesma passei por isso: minha mãe não me liberava para ir de ônibus aos treinos, então dependia do meu pai para me levar. A divulgação também é fundamental. A televisão, os jornais e os demais meios de comunicação precisam mostrar mais jogos. No começo, é importante que o acesso seja barato, porque ainda são poucas as pessoas dispostas a pagar valores altos para assistir ao futebol feminino. Os ingressos precisam ser acessíveis para que mais gente tenha a oportunidade de conhecer a modalidade.

Até que ponto o machismo estrutural atrapalha o desenvolvimento do futebol feminino em Campinas?

Acredito que atrapalha em cerca de 95%. Se não há mulheres participando das decisões, fica mais difícil fazer com que as necessidades das atletas sejam consideradas. Isso também acontece no sentido contrário: quem está envolvido com uma modalidade tende a olhar primeiro para os interesses dela. Por isso, ter mulheres nos conselhos e nas diretorias é uma oportunidade para apresentar outras perspectivas e propor mudanças. Fico feliz quando vejo o Guarani recebendo jogos e abrindo espaço para o público feminino. O futebol feminino também pode oferecer um ambiente mais tranquilo para famílias e crianças, especialmente em relação às rivalidades entre torcidas. Espero que a participação das mulheres nos conselhos ajude a ampliar essas oportunidades e a melhorar as decisões dos clubes.

Nós, homens, devemos olhar para o futebol feminino com mais generosidade, considerando que a modalidade teve menos tempo e oportunidades para se desenvolver?

As meninas têm menos oportunidades desde pequenas. Quando um menino de três ou quatro anos ganha uma bola, pode começar a chutar, brincar na rua e desenvolver a coordenação motora. Para as meninas, isso nem sempre acontece. Muitas vezes, elas recebem outros brinquedos e não são incentivadas a jogar futebol desde cedo. O desenvolvimento motor depende de estímulos. Se uma criança não tiver oportunidades de praticar determinados movimentos, terá mais dificuldade para desenvolvê-los. Por isso, precisamos começar a trabalhar com as meninas desde pequenas, assim como acontece no futebol masculino. Hoje já existem iniciativas em Campinas que oferecem oportunidades a meninas a partir de aproximadamente dez anos, e isso é muito positivo. Quanto mais cedo elas começarem a desenvolver a coordenação motora e as habilidades com a bola, melhor será a preparação para o futuro. Os clubes também estão procurando atletas cada vez mais jovens, de 15 ou 16 anos, porque sabem que podem investir nelas e colher resultados depois. É mais difícil desenvolver uma jogadora que só começa aos 20 anos, quando ela também precisa trabalhar ou estudar. Portanto, precisamos olhar para o futebol feminino com mais generosidade, mas também oferecer às meninas as condições necessárias para que possam se desenvolver desde a infância