O que me moveu a escrever esta coluna foi observar como o futebol consegue mudar a narrativa sobre um time sem que esse time tenha mudado na mesma velocidade. E, mais uma vez, vivi isso na prática.

Com a vitória sobre o Londrina, pela Série B, em apenas seis dias, o Sport deixou de ser descrito como uma equipe que estava há nove jogos sem vencer e passou a ser apresentado como um time que não perde há seis partidas.

Duas afirmações verdadeiras. Isoladamente, porém, parecem descrever duas equipes completamente diferentes. Não descrevem. A equipe não se transformou por completo. Quatro empates pertencem às duas sequências. O que mudou foram duas vitórias. E, com elas, mudou também o ponto a partir do qual escolhemos contar a história. Esse é o futebol.

Uma eterna e interminável batalha de narrativas, na qual buscamos heróis, vilões, culpados pela derrota e responsáveis pela vitória. Transformamos problemas complexos em explicações simples, processos coletivos em responsabilidades individuais e acontecimentos imprevisíveis em demonstrações definitivas de competência ou incompetência.

Depois de cada partida, todos correm para contar a história antes que outra versão prevaleça. O desempenho se interpreta. O merecimento se discute. A vitória, não.

Nas últimas quatro décadas, enfraquecemos sistematicamente os clubes brasileiros. Não apenas financeiramente, mas principalmente como instituições. Permitimos que presidentes, grupos políticos, profissionais, conselheiros e crises se tornassem maiores do que os próprios clubes.

Ao mesmo tempo, os clubes perderam autoridade e capacidade de liderar o ecossistema. Cederam espaço e poder à mídia, à torcida, aos jogadores, aos empresários, aos patrocinadores, às federações e, mais recentemente, às plataformas digitais.

Não se trata de responsabilizar esses atores. Eles apenas ocuparam os espaços deixados vazios. Quando uma instituição não consegue se posicionar, decidir e sustentar suas escolhas, outros passam a fazê-lo por ela.

Quanto mais fraco se torna o clube como instituição, maior é o espaço para que outros disputem, de fora para dentro, a narrativa sobre o que ele é, quem tem razão e quem deve ser responsabilizado.

Dentro desse processo, abnegados e profissionais passaram a ocupar trincheiras opostas.

De um lado, dirigentes que dedicaram parte importante de suas vidas aos clubes acusam os profissionais de terem afastado o futebol de sua identidade, transformando paixão em planilhas e relações humanas em processos corporativos. Do outro, executivos acusam a política dos abnegados de ser responsável pelo improviso, pela ausência de governança, pelo acúmulo de dívidas e pela enorme volatilidade dos profissionais.

Somadas, as dívidas dos 20 principais clubes do país chegaram a R$ 16 bilhões em 2025.

Os dois lados têm argumentos. Os dois lados também utilizam parte desses argumentos como álibi. Criamos ainda uma equivalência perigosa. Passamos a acreditar que profissionalismo é sinônimo de competência e que amadorismo é sinônimo de incompetência. Nem uma coisa, nem outra.

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Existem profissionais incompetentes, assim como existem abnegados extremamente preparados. Ser remunerado não garante conhecimento, responsabilidade ou capacidade de execução. Da mesma forma, doar tempo ao clube não autoriza ninguém a decidir sem método, governança ou prestação de contas.

Profissionalismo não é uma condição salarial. É uma forma de agir. Está na qualidade da decisão, na definição das responsabilidades, na transparência, na disciplina e na obrigação de responder pelas consequências.

Para alguns, representa a ruptura definitiva com a política, o improviso e o modelo associativo que acumulou dívidas durante décadas. Para outros, significa entregar patrimônio, identidade e poder de decisão a investidores sem vínculo histórico com o clube. Também aqui existem argumentos legítimos dos dois lados.

A SAF pode ser um instrumento importante de reorganização, investimento e governança. Não é, porém, um certificado automático de competência. Uma associação pode ser bem administrada e uma SAF pode ser mal administrada. A natureza jurídica não elimina vaidades, conflitos de interesse, erros estratégicos ou decisões ruins. Trocar o dono da decisão não significa necessariamente melhorar a decisão.

Quando os abnegados tratam os profissionais como invasores e os profissionais enxergam os abnegados apenas como representantes do atraso, quem perde é o clube. A tradição sem transformação envelhece. A transformação sem identidade não cria pertencimento.

Uma das maiores invenções do futebol foi transformar a vitória em pontos. Na primeira liga inglesa, criada em 1888 por iniciativa de William McGregor, estabeleceu-se que uma vitória valeria dois pontos e o empate, um