Operação usada como garantia para concessão de estádio é parte de apuração de irregularidade na Associação do Futebol Argentino
O Ministério Público da Argentina analisa propor uma cooperação internacional com a Polícia Federal brasileira para investigar conexões entre alvos da operação Carbono Oculto e irregularidades na concessão de um estádio em Mar del Plata. O caso envolve um empréstimo do Banco Master à Revee, braço da Reag.
O estádio está no centro do chamado caso Sur Finanzas, que apura eventuais crimes de lavagem de dinheiro, desvio de recursos e fraude bancária, e a ligação dos delitos com a Associação de Futebol Argentino. As informações foram publicadas na 2ª feira (10.ago.2026) pela coluna de Demétrio Vecchioli no portal Metrópoles.
O elo entre as investigações de Brasil e Argentina é um empréstimo de R$ 450 milhões do Banco Master à Revee, investigado pela PF como parte de uma lista de transações suspeitas. O portal obteve acesso a documentos que mostram como esse crédito foi usado para sustentar o pedido de concessão do estádio argentino.
A cédula de crédito bancário emitida pelo Master foi traduzida para o espanhol e apresentada pela Revee durante o processo de licitação como prova de capacidade financeira. A empresa brasileira também juntou ao processo uma declaração juramentada informando que os US$ 26 milhões (R$ 148 milhões na época) repassados pelo Master já estavam reservados para obras na Argentina.
A operação Carbono Oculto apura fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis com participação do Primeiro Comando da Capital. A Reag está envolvida nas investigações.
Um dos alvos foi João Carlos Mansur, fundador da Reag e que presidiu o conselho de administração da Revee. Ele renunciou em janeiro deste ano, mesmo mês em que o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Reag.
A empresa também aparece em apurações sobre o Master. Segundo o Banco Central, fundos da Reag Trust estruturaram operações irregulares com o banco de julho de 2023 a julho de 2024. Por isso, Mansur também foi alvo da Compliance Zero, que investiga a emissão de títulos de crédito falsos e suspeitas de desvio de recursos ligados a Daniel Vorcaro.
A concessão do estádio argentino é uma dobradinha entre a Revee e uma sociedade anônima argentina ligada a ex-dirigentes do Club Atlético Banfield.
A Revee criou, em dezembro de 2024, uma empresa local para participar do processo: a Minella Stadium S.A., constituída sob as leis da Argentina. A empresa brasileira ficou com 87,5% das ações e assumiu o compromisso de aporte de capital.
Os 12,5% restantes ficaram com a Sociedad Expansiva S.A., controlada pelas empresas Pro Merchandising S.A. e Pro Entertainment S.A., cujos donos não são identificados publicamente.
A Minella Stadium foi a única participante do processo de licitação. A proposta envolvia aporte de US$ 40 milhões, com financiamento do fundo Iduna.
O objetivo era transformar o estádio em uma arena com padrão Fifa para 35.000 pessoas. A comissão de licitação considerou a documentação insuficiente e exigiu mais garantias. Foi nesse momento que a Revee apresentou a carta de crédito do Master.
A concessão foi assinada em 24 de julho de 2025. A única intervenção realizada pela Revee no estádio foi a instalação de alguns metros de grades.
Na Argentina, em dezembro de 2025, uma operação cumpriu mandados de busca e apreensão na sede da AFA e em clubes de futebol. Entre os investigados está Eduardo Spinosa, ex-presidente do Banfield e que também presidia a Minella Stadium S.A. até o mês passado.
Com uma cadeia de sociedades anônimas, a ligação de Spinosa com a empresa só se tornou pública com a divulgação no diário oficial argentino, em 16 de julho, da ata que registrou sua substituição no comando da companhia. Eis a íntegra, em espanhol (PDF – 483 kB).
Além de Spinosa, a Minella era dirigida por Javier Schmidt e Diego Ávila, ex-executivos da Torneos, empresa pivô do Fifagate, e por Jorge Di Prinzio, ex-tesoureiro do Banfield.
Uma ação protocolada na Justiça da Argentina pela Mirada Ciudadana Asociación Civil diz que a concessão envolve também Pablo Toviggino, tesoureiro da AFA e alvo de investigações por lavagem de dinheiro e fraude bancária.
A Mirada Ciudadana Asociación Civil levou à Fiscalía de Delitos Económicos de Mar del Plata, em julho, um pedido de cooperação judicial com o Brasil. A solicitação ainda não foi respondida.
A entidade afirma que funcionários públicos de Mar del Plata e administradores da Minella Stadium estariam por trás de uma administração fraudulenta