O futebol brasileiro não vai acabar sem as empresas de apostas. A hipocrisia também não. Começo assim porque me incomoda a facilidade com que transformamos discussões importantes em disputas nas quais alguém precisa necessariamente escolher um lado.
Ou você é contra as bets e, portanto, está preocupado com as famílias brasileiras, com o endividamento e com os efeitos provocados pela ludopatia. Ou é favorável a elas e, consequentemente, estaria defendendo interesses econômicos de empresas, clubes e patrocinadores. A vida real é muito mais complexa e aleatória do que isso.
Os problemas provocados pela expansão das apostas são sérios e precisam ser enfrentados. Endividamento, dependência, publicidade excessiva, acesso de pessoas vulneráveis e suas consequências sociais não podem ser relativizados porque as bets colocaram muito dinheiro no futebol e no esporte brasileiro. Mas reconhecer a gravidade de um problema não significa concordar automaticamente com qualquer solução apresentada para ele.
Muito menos aceitar que um assunto dessa dimensão seja transformado, às vésperas de uma eleição presidencial, em mais um clássico regional da política brasileira. E aí mora a maior de nossas hipocrisias.
Passamos anos dizendo que determinados assuntos deveriam ser tratados como questões de Estado, e não de governo. Cobramos planejamento, responsabilidade, segurança jurídica e decisões de longo prazo. Mas basta a temperatura política subir para problemas extremamente complexos caberem novamente em slogans, campanhas e disputas eleitorais.
De um lado alguém bate, do outro alguém rebate e a arquibancada escolhe seu time. Enquanto isso, o problema continua lá.
Existe uma pergunta que pouco ouvi nos últimos dias: as pessoas deixarão de apostar porque as bets foram proibidas? Não tenho essa certeza.
A história de diferentes problemas sociais mostra que proibição e desaparecimento não são sinônimos. Existem situações em que regulamentar, fiscalizar, prevenir, restringir acesso, educar e reduzir danos dá muito mais trabalho do que simplesmente proibir.
Durante anos, diante de episódios graves de violência, torcidas organizadas foram suspensas dos estádios, tiveram uniformes, faixas e símbolos proibidos. Algumas continuam sendo punidas até hoje. As torcidas organizadas não desapareceram. A violência também não.
Em muitos casos, apenas mudou de lugar. Saiu das arquibancadas, atravessou os portões e reapareceu nas ruas, estações, estradas e quilômetros antes ou depois de uma partida.
Proibir pode impedir uma camisa de entrar no estádio. É muito mais difícil impedir que o problema entre na sociedade. Com as apostas, há uma pergunta parecida. O mercado ilegal não precisa de licença. Não paga outorga, não obedece às mesmas regras de publicidade, não oferece as mesmas possibilidades de fiscalização e não precisa explicar ao Estado de onde vem ou para onde vai seu dinheiro.
Se uma parcela relevante dos apostadores migrar para a ilegalidade, teremos resolvido um problema ou apenas tornado parte dele mais difícil de enxergar? Também não tenho essa resposta. Mas gostaria que ela estivesse no centro da discussão.
Curiosamente, o próprio futebol brasileiro oferece exemplos de outro caminho.
A arbitragem não melhorou porque decidimos acabar com os árbitros quando eles erravam. Criamos o VAR, investimos em tecnologia, treinamento, profissionalização e, mais recentemente, no impedimento semiautomático. Nada disso eliminou o erro. Criou ferramentas para reduzi-lo.
O Campeonato Brasileiro também construiu parte importante de sua confiabilidade mantendo há mais de duas décadas uma fórmula reconhecível. Clubes, investidores, patrocinadores, torcedores e emissoras sabem qual competição estão disputando. Previsibilidade também constrói confiança.
E vejo com bons olhos outro movimento recente da CBF. Assuntos que durante anos ficaram fora da mesa passaram a ser discutidos com clubes e diferentes agentes do futebol.Calendário, sustentabilidade financeira, arbitragem, formação de atletas e mudanças nas próprias regras entraram em reuniões e processos de construção coletiva.
Podemos concordar ou discordar das decisões, mas o que me importa aqui é o método. Ouvir, discutir, regular, implementar, avaliar e corrigir. É mais lento, óbvio. Porém, instituições não deveriam ter vergonha da lentidão necessária para tomar decisões melhores.
Nos últimos anos, o Brasil decidiu regulamentar as apostas. Criou regras, estabeleceu exigências, concedeu autorizações, cobrou outorgas, fiscalizou empresas e permitiu que contratos fossem assinados dentro de uma atividade legal. Empresas pagaram para operar. Clubes assinaram contratos. Federações, competições, veículos de comunicação e diferentes modalidades passaram a organizar seus negócios considerando aquela realidade.
Agora, em poucos dias, parte importante dessa realidade simplesmente deixa de existir. O Estado tem todo o direito de rever suas decisões e, quando identifica consequências graves para a sociedade, tem obrigação de fazê-lo. Mas existe uma enorme diferença entre rever uma política pública e produzir uma ruptura. E aqui o assunto deixa de ser apenas sobre bets e passa a ser sobre o nosso país.
O capital não gosta apenas de bons negócios. Gosta de regras minimamente previsíveis. Temos hoje mais de 140 SAF'S. Criamos uma legislação específica, atraímos investidores e apresentamos a SAF como uma das possibilidades para reorganizar economicamente nossos clubes. Apesar disso, ainda são poucos os grandes grupos internacionais do futebol que fizeram do Brasil um destino relevante para seus investimentos