Errar nunca foi uma opção para quem apita uma partida de futebol. Mas, na prática, o árbitro convive desde cedo com a certeza de que esse tipo de situação um dia vai acabar acontecendo. Ser xingado antes de a bola rolar, dificilmente ouvir elogios e ter a atuação discutida em programas esportivos e nas redes sociais faz parte da rotina. O que ninguém ensina é o que fazer quando essa pressão extrapola o campo e passa a influenciar o psicológico desses profissionais.
Após apitar o clássico Atlético 2 a 1 Cruzeiro, em 6 de março de 2022, pela primeira fase do Campeonato Mineiro, o árbitro Igor Benevenuto, atualmente VAR nos quadros da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), precisou deixar a própria casa e conviver com ameaças de morte. Desenvolveu depressão, síndrome do pânico e crises de ansiedade.
“Eu não pude voltar para casa durante um mês. Na primeira semana eu fiquei fora de casa, só fui lá com escolta policial. Fizeram ameaças à minha família, em redes sociais e conseguiram meu telefone pessoal... Foi uma pressão muito exagerada pelo o que aconteceu. Na época eu pensei seriamente em desistir”, recorda Benevenuto.
Os problemas de saúde mental enfrentados por árbitros não se restringem ao Brasil. Segundo levantamento que reuniu dados de 26 estudos conduzidos em diferentes partes do mundo, 19% dos profissionais da arbitragem apresentam sintomas elevados de ansiedade e 21% de depressão. Entre os principais fatores associados ao adoecimento estão as cobranças de torcedores e atletas, com impacto ainda maior sobre árbitros em início de carreira.
Ao todo, o estudo publicado em 2025 pela revista Sports Medicine intitulado “The mental health of sporting officials: A systematic review and meta-analysis (A saúde mental e o esporte: uma meta análise, na tradução) analisou 11.618 árbitros, principalmente de futebol, de países da Europa, Ásia, América do Norte, América do Sul e Oceania.
Para o psiquiatra Gabriel Elias Corrêa, existe um fator que pesa mais do que os erros. “Estudos mostram que o maior fator de risco, muito semelhante ao dos atletas, é a pressão social e a cobrança. Mais do que acertar um lance tecnicamente, o que mais estressa esses profissionais é o julgamento a que estão submetidos. Saber que uma decisão vai repercutir no país inteiro, nos jornais e nas redes sociais e que o nome deles estará em evidência. Esse peso da carga social tende a ser muito mais adoecedor do que a prática do trabalho em si”, esclarece Corrêa, gerente médico nacional de psiquiatria da Hapvida.
Um desses estudos, publicado em 2021 na revista Frontiers in Psychology, conduzido por pesquisadores da Universidade de Valência, na Espanha, mostrou ainda que muitos árbitros têm encarado insultos e ofensas como parte natural da profissão. Os autores relacionam esse comportamento ao conceito de violência simbólica, do sociólogo Pierre Bourdieu, em que determinadas formas de agressão se tornam tão frequentes que deixam de ser percebidas como exceção.
É justamente essa normalização que preocupa o psiquiatra Hélio Fádel, especialista em Medicina do Exercício e do Esporte. “O ser humano não consegue evitar esse fluxo. Tentar ser uma ‘mente blindada’ é tentar se sabotar, como se sentir ansiedade antes de uma decisão importante fosse um erro imperdoável. Isso alimenta uma espiral negativa”, disse.
Durante muitos anos, o cuidado com a saúde mental dos árbitros praticamente não existiu no futebol brasileiro. Os profissionais eram submetidos a testes físicos rigorosos e avaliações constantes sobre como aplicar as regras do jogo, mas precisavam lidar sozinhos com a pressão, as ameaças e as consequências emocionais dos erros cometidos na prática.
Entre 2007 e 2011, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) chegou a manter uma psicóloga para atender o quadro nacional de arbitragem. A falta de estrutura, porém, limitou o trabalho. Muitos atendimentos aconteciam por meio de videochamada e não havia acompanhamento contínuo.
Quando um árbitro cometia um erro de grande repercussão, a resposta mais comum era o afastamento temporário das escalas — a “geladeira” — seguido por reciclagem técnica, medida que, para muitos profissionais, aumentava o sentimento de isolamento.
Atualmente, os casos de maior pressão ou exposição dos árbitros, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) monitora a situação, embora não detalhe quantos profissionais procuram ou fazem acompanhamento psicológico. Entram nesse radar episódios como lances controversos, ataques nas redes sociais, ameaças e abordagens de torcedores.
“Em alguns casos, a gente sugere o acompanhamento psicológico e psiquiátrico, a gente sempre orienta. Porém, a obrigatoriedade não acontece. A gente sempre deixa o árbitro muito confortável nisso. O que a gente consegue fazer é pavimentar o caminho para que, se ele entender que precisa, tenha na gente não só um amparo institucional, mas também as orientações corretas”, afirmou Netto Góes, diretor da comissão de arbitragem da CBF.
De acordo com levantamento da CBF, em 2025 o Brasil contava com 927 árbitros e assistentes registrados. Desse total, apenas 72 profissionais são da linha Pro, que atuam nas séries A, B e C do Campeonato Brasileiro e recebem acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Isso representa 7,7% de todo o quadro registrado pela entidade.
A própria CBF reconhece que o programa ainda está longe de alcançar toda a categoria. “É um desafio. O Brasil é muito grande e a arbitragem é muito heterogênea. Temos árbitros que já se aposentaram, outros que atuam só na base, alguns trabalham apenas por hobby e outros seguem outra carreira profissional. Primeiro precisamos entender o tamanho desse universo para depois conseguir separar em grupos e oferecer um atendimento digno para todo mundo”, afirma Netto Goés, diretor de arbitragem da CBF.
E quem já sentiu na própria pele o impacto dessa pressão reforça a importância de tratar a saúde mental o quanto antes. “Eu tive que fazer um trabalho psicológico muito grande, muito forte, porque, se você não tiver uma estrutura psicológica adequada, você sucumbe e larga a arbitragem no meio do caminho”, relembra o árbitro Igor Benevenuto, após ameaças recebidas em 2022 depois de um clássico mineiro.
A busca por ajuda especializada ainda esbarra em um grande obstáculo: o preconceito. “A procura cresceu muito, mas o estigma ainda existe. Muitos árbitros entendem a importância desse acompanhamento, mas alguns profissionais acreditam que procurar um psicólogo pode ser interpretado como sinal de fraqueza, quando, na verdade, é exatamente o contrário”, afirma Netto Góes, diretor de arbitragem da CBF.
Segundo Góes, a próxima etapa do programa prevê a criação de canais de telemedicina para ampliar o acesso ao acompanhamento psicológico e iniciar um processo de identificação e monitoramento de profissionais que ainda estão fora da linha Pro. Além disso, a entidade vai atuar junto às federações estaduais, onde começa a formação da maioria dos árbitros brasileiros.
Na avaliação do psiquiatra Hélio Fádel, o crescimento da procura pelo acompanhamento psicológico é um passo importante, mas, sozinho, não resolve o problema. “Reduzir o estigma em torno do tema e criar redes de apoio dentro da arbitragem são medidas fundamentais para impedir que uma pressão inerente ao futebol evolua para um quadro de adoecimento”, afirma.
Para o profissional da saúde, é preciso conscientizar os árbitros de que o cuidado com a saúde mental deve ser contínuo. “Ninguém acredita que vai curar uma perna quebrada sozinho apenas colocando a perna para cima. Com a saúde mental, porém, muita gente ainda acha que basta descansar e tudo vai passar. Em alguns casos, não é bem assim. O tratamento adequado faz uma diferença enorme na qualidade de vida”, completa