Estatuto obriga a retomada do futebol feminino, preserva escudo, cores e nome do clube, além de vetar a transferência da sede ou dos mandos de jogos para outra cidade
Sem equipe feminina desde dezembro de 2021, a Ponte Preta terá de retomar a modalidade caso a proposta da SAF seja aprovada pelos associados e implementada no clube (Álvaro Júnior/Pontepress)
No processo de negociação para a implantação de uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF), a Ponte Preta trabalha para garantir que a futura controladora respeite integralmente as cláusulas previstas no estatuto do clube. A proposta em discussão prevê a transferência de 85% das ações da empresa ao investidor, enquanto a Associação Atlética Ponte Preta permaneceria com os 15% restantes, percentual mínimo estabelecido pelo artigo 108 do estatuto. A empresa, porém, ainda depende de autorização da Assembleia Geral para ser criada. A data da reunião ainda não foi anunciada pelo presidente do Conselho Deliberativo, José Armando Abdalla Junior. Nas conversas realizadas até agora, os representantes da candidata à SAF já foram informados de que não poderão alterar a identidade do clube, mudar sua sede ou transferir os mandos de jogos para outra cidade. Também terão a obrigação de reativar o futebol feminino.
As regras estão previstas no artigo 107 do estatuto, aprovado em 11 de agosto de 2023. O dispositivo determina que a controladora desenvolva tanto o futebol masculino quanto o feminino, modalidade desativada desde dezembro de 2021 sob a justificativa de contenção de despesas. O estatuto também estabelece que a SAF terá direito às receitas provenientes dos atletas vinculados às equipes masculina e feminina, além de poder explorar os direitos de propriedade intelectual cedidos pela Associação Atlética Ponte Preta.
Outro trecho do artigo 107 autoriza a realização de atividades ligadas ao futebol e ao patrimônio da SAF, incluindo eventos esportivos, sociais e culturais. Na prática, esse dispositivo respalda a intenção da diretoria de negociar a cessão do estádio Moisés Lucarelli em regime de comodato por 30 anos, com possibilidade de renovação por igual período. A proposta apresentada pela candidata prevê transformar o Majestoso em um espaço apto a receber grandes shows e eventos corporativos, ampliando as fontes de receita do clube.
As restrições para a futura controladora aparecem no artigo 109 do estatuto, que protege os símbolos e a identidade da Ponte Preta. O texto impede qualquer alteração no nome, escudo e cores do clube, além de proibir a transferência da sede ou dos mandos de jogos para outra cidade que não seja Campinas. A preocupação dos associados tem como base exemplos recentes do futebol brasileiro. O Oeste deixou Itápolis em 2017 para atuar em Barueri sob a alegação de que o Estádio dos Amaros não atendia às exigências da CBF. No segundo semestre do ano passado, o clube voltou a mudar de endereço, passando a atuar em Osasco, além de adotar o nome Osasco Sporting. Outro caso citado nos bastidores é o do Bragantino, que, após a venda da operação para a Red Bull em março de 2019, passou a se chamar Red Bull Bragantino e adotou um novo escudo.
Depois da aprovação da criação da SAF pela Assembleia Geral, o contrato negociado ainda será submetido ao Conselho Deliberativo, acompanhado de parecer do Conselho Fiscal. Para avançar, será necessário o voto favorável de dois terços dos conselheiros presentes. Na etapa seguinte, uma nova Assembleia Geral Extraordinária será convocada e também dependerá da aprovação de dois terços dos associados presentes para que o negócio seja definitivamente sacramentado.
A proposta apresentada à Ponte Preta prevê investimentos de R$ 1 bilhão. Desse total, R$ 400 milhões seriam destinados às obras no Centro de Treinamento do Jardim Eulina e à modernização do estádio Moisés Lucarelli. Outros R$ 300 milhões seriam utilizados para quitar dívidas tributárias, cíveis e trabalhistas. Não está descartada a possibilidade de o clube recorrer à recuperação judicial, hipótese em que a futura controladora assumiria a responsabilidade pelos pagamentos. Os R$ 300 milhões restantes seriam investidos ao longo de dez anos no Departamento de Futebol Profissional e nas categorias de base, com aporte médio estimado em R$ 2,5 milhões mensais