No último dia 25 de setembro, o Governo Federal editou uma medida provisória que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa em território nacional. Legalizada em 2018, durante o governo de Michel Temer, a modalidade cresceu sem qualquer sistema de regulamentação e fiscalização até os últimos anos do governo Bolsonaro.
Esse mercado chega ao terceiro governo Lula associado ao endividamento de parte da população, a custos para o Estado e a uma poderosa rede de publicidade e lobby. Em entrevista à Cult, Kauê Lopes dos Santos, professor do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências da Unicamp e autor de Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia (Fósforo, 2026), classifica a proibição como “uma prioridade atendida” pelo governo e argumenta que os efeitos das bets ultrapassam os apostadores, atingindo famílias, serviços públicos e a própria economia.
“Quando olhamos para o Bolsa Família como uma política de geração de renda e de aquecimento econômico, vemos dinheiro sendo colocado em circulação. Quando esse dinheiro é capturado pelas bets, temos o comprometimento em cascata de uma política pública”, argumenta Lopes dos Santos, que atualmente prepara um livro sobre o mercado das bets no país, com lançamento previsto pela Fósforo para 2027.
Como você chegou ao tema das bets e de que maneira ele se relaciona ao seu livro anterior, sobre as dinâmicas de endividamento nas periferias?
O livro, com lançamento previsto para o segundo semestre de 2027, ainda está em elaboração. Já consegui, porém, reunir um volume significativo de entrevistas qualitativas e longas com pessoas que se endividaram em decorrência das apostas, sem deixar de investigar outras formas de vício em jogos.
As bets chegaram ao Brasil em 2018, mas ganharam força sobretudo durante o governo Bolsonaro, em um período em que o setor ainda não tinha legislação nem regulação efetiva. Elas chegam, portanto, ao terceiro governo Lula já como um mercado bastante poderoso. Isso acontece em uma sociedade que já apresenta um quadro estrutural de endividamento, o que estabelece uma relação direta com o meu livro anterior, Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia, dedicado principalmente à aquisição de bens de consumo.
Ao longo da pesquisa, comecei a perceber uma relação importante entre endividamento e vício. Durante a pesquisa, os entrevistados só reconheciam o problema do vício em aposta quando a dívida se impunha. Enquanto ainda existe algum ganho, eles não necessariamente interpretam seu comportamento como um vício.
A diferença é que, no caso das apostas, não estamos falando apenas de ciclos relativamente curtos de endividamento, como aqueles associados à aquisição de bens de consumo. Estamos falando de dívidas que podem atingir volumes muito significativos e desestruturar famílias inteiras, de diferentes classes sociais.
Entre as pessoas que entrevistei, predominam, sobretudo, indivíduos das classes médias e baixas. Isso dialoga com os dados disponíveis sobre o perfil dos apostadores: mais de 50% dos usuários de bets são pessoas que ganham até dois salários mínimos.
Estamos, portanto, falando de uma população que já apresenta algum grau de vulnerabilidade socioeconômica e que encontra, em grupos como os Jogadores Anônimos, uma possibilidade de tratamento e uma tentativa de recuperação.
Por que as empresas do mercado de apostas ganharam tanto poder nos últimos anos?
As apostas sempre existiram; não são uma novidade. Inclusive, nas sessões dos Jogadores Anônimos, muitos afirmam que se trata de um vício como outro qualquer, pois eles interpretam a situação principalmente a partir de suas próprias experiências com vícios. Mas, quando adotamos uma perspectiva sociológica, percebemos que as apostas passaram a operar dentro de uma estrutura completamente diferente, com novas formas de investimento, acesso e circulação.
Estamos falando de um país em que as camadas mais pobres da população foram finalmente incorporadas ao mercado de consumo, ainda que de maneira desigual. Hoje, o Brasil conta com uma ampla infraestrutura de eletrificação e com uma enorme disseminação de celulares conectados à internet.
Isso muda completamente o acesso às apostas. As casas de apostas passaram a estar na palma da mão. E esse acesso vem acompanhado de uma publicidade massiva, feita por influenciadores, clubes de futebol e outros agentes, que associa as apostas à possibilidade de dinheiro fácil.
Essa publicidade explora casos de enriquecimento, mesmo que os dados apontem para o cenário contrário: o aumento do endividamento, sobretudo entre as camadas de menor poder aquisitivo, e o surgimento de vários problemas relacionados a isso