A bola sobrou na área dos Estados Unidos e Sofia Couto estava onde talvez não se esperasse encontrar uma zagueira. O gol brasileiro carregava uma história que havia começado ainda na véspera. Durante o jantar, depois de receber mensagens de incentivo de jogadoras da Seleção principal, as companheiras brincaram que ela marcaria no dia seguinte. Sofia entrou na brincadeira: “Eu vou”. Quando a bola entrou, a promessa virou realidade.

Foi o primeiro gol da defensora pela Seleção Sub-20 e um dos momentos mais marcantes de sua passagem pelo Mundial da categoria. Aos 19 anos, a jogadora do Flamengo foi titular durante os 120 minutos do empate por 1 a 1 com os Estados Unidos, pelas quartas de final, antes da classificação brasileira nos pênaltis.

“Na hora que eu fiz o gol, falei: ‘Meu Deus, a gente falou’. Saí comemorando com elas. Depois fiquei refletindo sobre como o pensamento antes do jogo afeta o jogo. Entrei querendo muito esse gol. Eu realizei um sonho”, contou Sofia, em entrevista exclusiva à VEJA.

A partida carregava um peso especial para as brasileiras, já que Brasil e Estados Unidos construíram uma rivalidade de décadas no futebol feminino, mas, para uma geração que cresceu acompanhando esses encontros de fora, estar dentro de campo tinha outro significado.

“Quando a gente soube que seriam os Estados Unidos, o grupo ficou: ‘Caraca, Estados Unidos, que jogaço’. É uma rivalidade histórica. A gente sempre viu isso e achou muito legal de fora. O que é melhor do que a gente mesma jogar e poder escrever a história?”, disse.

Sofia disputou cinco partidas no Mundial Sub-20 e somou 480 minutos. O Brasil venceu Tanzânia, Canadá e Inglaterra antes de superar os Estados Unidos nas quartas. A campanha terminou diante da Espanha, que venceu as brasileiras por 1 a 0 e posteriormente conquistou o título.

Mais do que os resultados, Sofia destaca o amadurecimento proporcionado pela competição. A zagueira conta que a comissão técnica trabalhou para acelerar a conexão de um grupo que passa boa parte da temporada separado em seus clubes. Segundo ela, reuniões entre as próprias atletas e encontros com a comissão fizeram parte da construção dessa sintonia.

“Se você tem uma conexão com a pessoa fora de campo, dentro de campo vai ser muito mais fácil colocar isso em prática. A gente fazia muita reunião para tentar se unir o máximo possível”, explicou.

O Mundial também colocou Sofia diante de adversárias de escolas diferentes. Para ela, o principal aprendizado que leva de volta ao clube está relacionado à capacidade de permanecer concentrada mesmo diante da pressão.

“Acho que o trabalho mental que a gente tem em uma competição como essa, de foco e resistência física e principalmente mental, é o que vai me trazer mais diferença. Errou, vamos continuar, vai dar certo”, afirmou.

Formada na base rubro-negra, Sofia está no Flamengo desde as categorias inferiores e começou a ganhar oportunidades no profissional. Em 2026, alternou compromissos pelo Sub-20, equipe principal e Seleção Brasileira.

A velocidade nas coberturas aparece como uma de suas principais características defensivas. A própria jogadora identifica uma evolução importante entre suas experiências no Sub-17 e no Sub-20.

“A questão dos meus passos melhorou muito. Essas coberturas sempre foram o meu forte, é algo que eu gosto muito de fazer, usar minha velocidade. Mas acho que o principal tecnicamente têm sido os meus passos, que estão bem melhores”, analisou.

A experiência também aumentou a percepção sobre a velocidade exigida no nível mais alto. Sofia cita justamente o confronto contra a Espanha como exemplo da necessidade de tomar decisões em menos tempo.

“Contra a Espanha é tudo rápido. Esse tempo que a gente tem mais na base, no profissional e jogando Mundial não tem. É o que eu quero evoluir mais”, afirmou.

A trajetória pelas seleções de base também permitiu que Sofia conhecesse diferentes países por meio do futebol. Desde o ciclo do Sub-17, a zagueira já esteve em Argentina, Espanha, Estados Unidos, Portugal, Paraguai, Polônia e República Dominicana. Apesar das viagens, ela conta que a rotina de treinamentos, jogos e recuperação deixa pouco espaço para turismo.

“Quando comecei a ter essa experiência de sair do Brasil com o futebol, tive ainda mais certeza de que é isso que quero para a minha vida. Minha família sempre pergunta: ‘Você vai passear?’. Não tem como passear. É realmente muito trabalho, é só futebol que a gente vive lá fora. Mas você está vivendo isso e trocando experiência com outras culturas. É muito legal”, contou.

A experiência internacional também fez a defensora se preocupar com a comunicação. Sofia afirma que já consegue se virar em inglês e pretende aprender espanhol.

“Eu falo inglês, não fluentemente, mas falo bem, me viro bem. Espanhol é uma língua que eu quero aprender. Minha mãe é fluente em espanhol e às vezes fica falando espanhol o dia inteiro. Eu falo: ‘Mãe, não entendo’. Mas é uma língua que eu quero aprender”, completou.

O esporte faz parte da rotina da família de Sofia. Enquanto a zagueira representa o Flamengo e acumula convocações para as seleções de base no futebol, o irmão também defende o clube e a Seleção Brasileira, mas no polo aquático. Segundo ela, os dois vivem momentos semelhantes nas respectivas carreiras