Uma vez, mais precisamente há 20 anos, na eleição presidencial de 2006, defendi o voto nulo como uma escolha consciente, numa coluna para a revista Epoca. Lula e Alckmin se enfrentavam, em lados opostos.
Eu tinha meu candidato, não anulei meu voto. Acho desperdício numa democracia, que se distingue de uma ditadura por oferecer à população eleições livres.
Mas eu condenava as patrulhas raivosas que desmereciam o voto nulo, descrito na Wikipedia como um instrumento de protesto, de descontentamento. Não era a opção “não sei”, do voto em branco. Era “nenhum dos dois”. O voto, eu dizia, pode ser convicto, ideológico, útil, desesperado, desiludido, pragmático. Ou mesmo nulo.
Isso aí era no tempo em que dois candidatos democráticos disputavam a Presidência. Nos últimos anos, a coisa mudou de figura.
Quando Jair Bolsonaro foi eleito, era sabidamente um candidato que defendia a tortura, a ditadura, achava estupro engraçado, menosprezava homossexuais e mulheres, desprezava a ciência, e achava que tudo se resolvia na força e no tiro. Deu no que deu.
Eu era contra. Um voto nulo ou branco contribuiria para elegê-lo.
Agora, temos, em 2026, o filho do Jair. Tão isolado em sua gelatina mental que já apela de novo aos radicais, para ver se salva sua candidatura. Um Flávio nervoso, que se embola com a madrasta e reedita o ataque do pai às urnas eletrônicas, com base em informações erradas.
Seu fiel escudeiro foragido nos EUA, o influenciador Paulo Figueiredo, reafirmou nas redes a “genialidade” de Bolsonaro: “Todo mundo acha que a Maria do ‘HorroRosário’ não merecia ser estuprada”. Figueiredo é neto de ditador. Disse que mulher vota mal e que Flávio “é a melhor opção para homens e mulheres de bem no Brasil”.
É esse o outro lado nesta eleição. Tem gente que vai torcer a favor. E tem gente que vai torcer contra. Ok. É legítimo.
E há os isentões. Os “sensatos” que condenam a polarização. Da extrema direita e “extrema esquerda”. Por desinformação ou irresponsabilidade, alguns eleitores de centro vislumbram uma extrema esquerda no poder no Brasil. Vai dizer isso ao Alckmin, antes rival e hoje eterno vice de Lula.
O voto nulo, que eu defendia das patrulhas em 2006, deixou de ser opção.
E aí chego, por linhas tortas, ao futebol, caso o VAR não me declare impedida e eu tenha alguns minutos de prorrogação. Torci muito contra Argentina. Torci muito a favor. De Cabo Verde. Do Marrocos. Do Egito. Do Senegal. Da Inglaterra.
Adorei o resultado da Copa. Torcer contra pode dar muita alegria quando se faz justiça.
Me emocionei com as homenagens às mães. Em especial à do Nico Williams, da Espanha, nascido em Gana. Me diverti demais com o irmãozinho de Lamine Yamal, o Keyne, de apenas 3 anos, tão fofo e carismático.
Torci contra a Argentina não por ressentimento, não há motivo. Mas por ter sido a seleção mais racista, desleal, agressiva e mal educada de todas. Além de tudo, mereceu perder pelo futebol nulo e catimbeiro da final.
O mundo reagiu com espanto ao ódio no campo – os socos dos hermanos na barriga e na cervical de adversários. E à falta de espírito esportivo na premiação. Ficaram de costas para o vencedor, a Espanha. É coisa de quem não sabe perder. Lembra golpistas, nos EUA e no Brasil.
Torci contra Argentina por ter sido a mais favorecida pela Fifa de Infantino – o homem que Trump quer eleger secretário-geral da ONU e que lhe concedeu o inédito Prêmio da Paz. Que treta íntima esquisita.
Last but not least, torci contra Argentina por “reciprocidade”. A palavra do momento.
Não dá para ficar em cima do muro. É preciso torcer a favor. É preciso torcer contra. Rir ou chorar com o resultado. Na política e no futebol