Se o Marco Luque do início da carreira artística pudesse encontrar o Marco Luque de hoje, aos 52 anos, provavelmente olharia para o futuro com uma mistura de surpresa e orgulho e soltaria uma frase simples: “Então, deu certo, hein?”.

De lá para cá, muita coisa mudou – a carreira cresceu, os personagens ganharam novas histórias e Luque acumulou anos de estrada. Mas existe algo que o tempo não conseguiu levar embora: a alma de moleque do humorista e ex-jogador de futebol.

“Apesar de tudo que aconteceu, eu continuo com a mesma alma de moleque e de palhaço. Mudou muita coisa ao redor, mas essa vontade de brincar continua igual”, contou ao AT2.

Ele destacou que é justamente essa disposição para experimentar e olhar para a vida com curiosidade que move sua nova fase nos palcos. Depois de três anos em turnê com “Dilatados”, o humorista retorna com “É Disso Que Eu Tô Falando”, espetáculo que revisita alguns dos personagens mais famosos de sua trajetória.

A temporada em Vitória acontece nos dias 29 e 30 deste mês, reunindo no palco figuras queridíssimas do público: Jackson Faive, Mustafary, Mary Help e Silas Simplesmente.

A filosofia de Luque atualmente se traduz em uma palavra: curiosidade. Para ele, envelhecer não precisa ser sinônimo de abandonar a criança – ou melhor, o moleque – que existe dentro de cada um.

Pelo contrário. A maturidade pode até trazer algumas rugas, mas não precisa vir acompanhada de um manual de instruções para virar “ranzinza”.

“Quanto mais o tempo passa, mais eu percebo que envelhecer não precisa significar perder o moleque que existe dentro da gente”, resume. É uma espécie de pacto com o tempo: deixar que ele leve algumas coisas, mas não a capacidade de se divertir.

AT2: Depois de três anos vivendo os “Dilatados”, como foi voltar a colocar quatro personagens tão diferentes?

Marco Luque: É muito gostoso revisitar esses personagens porque eles fazem parte da minha história, mas eles também não podem ficar congelados no tempo. O desafio é entrar e sair dessas quatro cabeças durante o espetáculo.

AT2: Num churrasco com seus personagens, quem atrasa, leva comida errada e reclama?

Marco Luque: O Mustafary chegaria atrasado porque perdeu a noção do tempo contemplando uma árvore. O Jackson chegaria de moto trazendo a carne, mas provavelmente de outro churrasco. A Mary Help reclamaria da sujeira antes de todo mundo sentar. E o Silas ia passar o churrasco inteiro contando que já levou o dono da churrascaria no táxi dele.

AT2: Você já imaginou o que aconteceria se Jackson Faive desse uma aula de direção defensiva para Silas?

Marco Luque: Seria uma aula que provavelmente terminaria sem nenhuma aula. O Jackson tentando ensinar o Silas a se antecipar ao trânsito e o Silas interrompendo para contar que já levou o Ayrton Senna no táxi.

Marco Luque: Todos têm alguma coisa minha. Acho que, inevitavelmente, você coloca um pedaço seu em tudo que cria. Mas talvez o Mustafary tenha algumas coisas que fazem parte de mim, principalmente essa relação com natureza, esse olhar mais contemplativo para a vida.

AT2: O cotidiano brasileiro está mais engraçado ou mais difícil de transformar em piada?

Marco Luque: O cotidiano continua sendo uma fonte infinita para o humor. Talvez hoje a gente tenha que olhar para ele com mais atenção. As coisas mudam, a sociedade muda e o humor também precisa evoluir.

AT2: O que mudou nos quatro personagens até agora?

Marco Luque: Eles envelhecem junto comigo e com o público. O mais legal é atualizar o universo deles sem tirar aquilo que fez o público gostar deles. Eu vejo mais como evolução.

AT2: Se pudesse reunir os quatro para uma terapia de grupo, quem precisaria mais de ajuda?