O calendário do futebol pode funcionar como um marcador de risco para a violência contra mulheres. É o que aponta a segunda edição do estudo “Futebol e Violência contra a Mulher”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), apresentado nesta terça-feira (11) em São Paulo, na sede do Grupo Mulheres do Brasil, com as presenças de Luiza Trajano, do ex-jogador Raí e de especialistas no tema. A pesquisa identificou aumento de 27,4% nos registros de ameaça e de 28,8% nas ocorrências de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica nos dias em que havia jogos de futebol.

O levantamento analisou partidas do Campeonato Brasileiro da Série A, da Copa Libertadores e da Copa Sul-Americana entre 2023 e 2025, além de registros policiais de violência contra mulheres em Salvador, Belo Horizonte, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo. Ao todo, foram considerados 219.595 registros de ameaça e 88.720 ocorrências de lesão corporal no período.

O estudo ressalta que os resultados não permitem afirmar que o futebol seja a causa da violência. A metodologia identifica uma associação entre a realização das partidas e o aumento das ocorrências, controlando fatores como dia da semana, mês, ano, temperatura e chuva. “Nossos coeficientes estimados devem ser interpretados como associações entre jogos e violência, não como efeitos causais”, explica o levantamento.

O levantamento aponta impacto maior entre meninas e mulheres de 15 a 29 anos quando a bola rola. Nessa faixa etária, os registros de ameaça e de lesão corporal aumentam cerca de 44% nos dias de jogos. Quando o recorte considera especificamente ameaças sofridas dentro de casa, o crescimento chega a 47,3%.

O ambiente doméstico aparece com destaque nos resultados. Na base geral analisada, 47,3% dos registros de ameaça e 62,8% das lesões corporais ocorreram dentro de residências. Nos dias de partidas, segundo o estudo, os casos continuam em patamar mais elevado quando são considerados especificamente os episódios registrados dentro de casa.

O ex-jogador Raí defendeu o envolvimento de homens e atletas no enfrentamento à violência contra as mulheres. “É preciso juntar forças, e os homens precisam participar. O futebol é um reflexo da sociedade quando você vê racismo, preconceito, violência. E, no caso da violência, é um reflexo piorado em dias de jogos, e com números alarmantes. A gente tem que se revoltar. Cada vez mais homens e atletas têm que participar”, afirmou.

Raí também destacou a ampliação da presença feminina no futebol como parte desse processo. “A Copa feminina vai ser uma oportunidade única. Até 1979, a mulher era proibida de jogar. Quanto mais mulheres participam, mais elas ocupam espaço”, disse.

A pesquisa pondera, que, embora nos dados gerais, as mulheres negras sofram mais violência, as mulheres brancas possuem maior aumento de denúncias em dias de jogos. Como hipótese explicativa, essa diferença seria explicada pelo fato de as mulheres negras estejam menos expostas ao contexto específico do jogo.

“A maior restrição do tempo livre das mulheres negras - frequentemente absorvido pelo trabalho remunerado, informal ou doméstico e pelas atividades de cuidado - pode reduzir sua participação em situações de convivência associadas às partidas, como reuniões familiares e mesmo a permanência compartilhada no domicílio durante o jogo. Com isso, teríamos uma menor exposição ao agressor, justamente no intervalo temporal em que o futebol pode atuar como catalisador situacional da violência, afirma o estudo.

Os números também mostram diferenciação nos diferentes dias da semana. Na análise das ameaças, por exemplo, o número médio de registros foi maior em dias com jogos em todos os dias analisados. Na quinta-feira, a diferença chegou a 12,84 notificações por dia, enquanto no sábado foi de 9,76.

Nas lesões corporais, a sexta-feira apresentou a maior diferença média: foram 20,65 registros em dias com jogos, contra 13,60 nos dias sem partidas, uma diferença de 7,05 ocorrências.

O estudo não aponta um único motivo para o aumento. A pesquisa discute fatores como frustração com resultados, rivalidade, consumo abusivo de álcool e apostas esportivas, dentro de um contexto mais amplo de desigualdade de gênero e padrões de masculinidade.

Uma das hipóteses discutidas é a de que resultados inesperados, especialmente derrotas, podem funcionar como gatilhos emocionais.

As apostas esportivas também aparecem como um possível fator de intensificação. Segundo o relatório, a combinação entre frustração com o resultado de uma partida, perda financeira e comprometimento do orçamento familiar pode agravar conflitos já existentes. O estudo ressalta, entretanto, que as bets não causam sozinhas a violência, mas podem multiplicar riscos em relações já marcadas por desigualdade e conflitos.

O relatório destaca que o futebol é uma expressão cultural de enorme alcance no país e que justamente sua capacidade de mobilizar pessoas pode ser utilizada também para prevenção. A proposta é que clubes, federações, torcidas e poder público atuem conjuntamente para reduzir riscos e promover uma cultura esportiva mais inclusiva.

Entre as recomendações estão a criação de postos de acolhimento e denúncia nos estádios, o fortalecimento do monitoramento de casos de violência doméstica, ações educativas promovidas por clubes e federações e estratégias de prevenção que considerem álcool e apostas esportivas como fatores de risco. O estudo também propõe “programas contínuos de formação de atletas, com foco na prevenção da violência contra as mulheres e na responsabilidade social no esporte”.

A ideia é aproveitar a força de clubes, atletas e torcidas para enfrentar o problema. Como resume o próprio estudo, o calendário das partidas pode ser usado pelas redes de proteção e pelas forças de segurança para antecipar situações de maior risco, ao mesmo tempo em que o futebol pode se tornar um espaço de promoção de comportamentos não violentos