A paixão pelo futebol também pode revelar um lado preocupante: a violência contra a mulher. Registros de ameaça aumentam 27,4% em dias de jogos, enquanto os casos de lesão corporal por violência doméstica crescem 28,8%, segundo estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, publicado na última semana, que analisou dados de 2023 a 2025 em cinco capitais brasileiras.

O cenário também encontra reflexos no Espírito Santo. Durante o Capixabão 2026, dois episódios de assédio contra jornalistas aconteceram no estádio Robertão, em Serra Sede, envolvendo torcedores do Serra.

Na partida contra a Desportiva, a jornalista Laura Gomes relatou ter sido alvo de ofensas e comentários de cunho sexual. Semanas depois, no duelo entre Serra e Vitória, Clara Fafá também foi assediada e insultada por torcedores.

Nos dois casos, as jornalistas encontraram dificuldades para formalizar as denúncias. A situação evidencia o desafio de registrar ocorrências de assédio em ambientes esportivos, mesmo quando há testemunhas e ampla exposição pública.

Para a advogada criminalista capixaba Nara Borgo, de 47 anos, o futebol ou o resultado de uma partida não diminuem a responsabilidade de quem agride.

Segundo Nara, agressões físicas podem ser enquadradas como lesão corporal e, quando ocorrem no contexto de violência doméstica, podem resultar em medidas protetivas, como afastamento do agressor, proibição de contato e aproximação e restrição do porte de armas.

Ela alerta que uma situação de intimidação pode evoluir para uma agressão física. Entre jovens de 15 a 29 anos, o problema é ainda maior: os registros de ameaça e lesão corporal aumentam 44% em dias de jogos.

Para Nara, informação e rede de apoio são fundamentais para romper o ciclo.

Ela defende ainda ações preventivas de clubes, torcidas, federações, jogadores e imprensa.

O futebol capixaba ganhou um novo aliado no combate à violência contra a mulher. Além da campanha promovida pela Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Espírito Santo (OAB-ES) e pela Federação de Futebol do Estado do Espírito Santo (FES), com ações em todos os jogos do Capixabão 2026, o Judiciário também passou a ocupar os estádios para atuar na prevenção e no enfrentamento de casos de violência durante grandes eventos.

Instalado no início deste ano, o Juizado do Torcedor e de Grandes Eventos do Espírito Santo leva a Justiça para dentro dos locais de concentração de público. A iniciativa atende a uma resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e busca garantir respostas rápidas para ocorrências que envolvam torcedores, profissionais da imprensa e demais participantes.

Titular do 2º Juizado Especial Criminal de Vitória, a juíza Letícia Nunes Barreto explica que a atuação vai além das agressões físicas. Racismo, violência moral, importunação sexual e crimes motivados por gênero também estão no radar da equipe.

A Justiça atua nos eventos por meio do ônibus do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES), acompanhado por psicólogos, assistentes sociais e servidores. A equipe chega antes do início das atividades para informar o público sobre a presença do Judiciário e distribuir materiais de prevenção.

Para a magistrada, a presença da Justiça dentro dos eventos também tem efeito preventivo.

Em caso de ocorrência, o Juizado pode atuar imediatamente no local, com acolhimento especializado e os encaminhamentos necessários.

Especialistas e instituições apontam um conjunto de medidas para prevenir e enfrentar a violência contra a mulher associada a eventos esportivos