Um dos mais influentes e reconhecidos agentes de futebol do Brasil nas últimas décadas, Wagner Ribeiro, que trabalhou com nomes como Robinho, Kaká e Neymar, trouxe à tona os bastidores do mundo das transferências de jogadores, admitindo táticas ousadas e criticando o que ele descreve como um “mercado promíscuo” para empresários.

Em uma extensa entrevista, o veterano profissional, que atua desde 1997, compartilhou detalhes de sua trajetória, desde o início modesto até as grandes negociações que moldaram carreiras de ídolos do esporte. Suas revelações incluem a manipulação da imprensa para valorizar atletas e os intrincados caminhos financeiros que definem o destino dos talentos.

Wagner Ribeiro não poupa palavras ao descrever a atual conjuntura do agenciamento no futebol como “promíscua”. Ele explica que a mudança ocorreu ao longo de quase três décadas, saindo de um cenário onde os agentes da FIFA dominavam para um ambiente com mais de dez mil profissionais registrados na CBF.

O empresário detalha que, antes, o “direito econômico” do jogador podia ser fatiado entre vários investidores, como em uma “pizza”. A FIFA mudou essa regra, proibindo agentes e investidores de possuírem parte do passe. No entanto, as estratégias para contornar essa proibição se sofisticaram, com “contratos de mútuo” que garantem o retorno do investimento a terceiros em caso de venda futura.

Outra prática que o agente critica é a “compra de representação”, onde novos empresários oferecem grandes quantias para “roubar” jogadores que já têm agentes desde cedo. Segundo ele, muitas famílias e jovens atletas, que recebem apoio financeiro e material desde os 10 anos, acabam cedendo a ofertas milionárias, desligando-se de quem os ajudou inicialmente, o que gera uma “ingratidão muito grande”.

Ribeiro revelou que, ao longo de sua carreira, utilizou a imprensa para estrategicamente valorizar jogadores e influenciar negociações. Ele confessou ter “plantado” informações, mesmo que não fossem totalmente confirmadas, sobre o interesse de grandes clubes europeus em seus atletas. “Se eu vazo aqui que o jogador tem interesse do Real Madrid, por exemplo, com certeza muitos da Europa vão vir atrás. Um jogador que o Real Madrid quer, todos querem”, explicou.

Essa tática tinha um duplo benefício: aumentava o assédio de outros clubes e elevava o poder de barganha na hora de renovar contratos com os clubes atuais, resultando em valores significativamente maiores. O agente considera essa prática parte do “mercado” e “do futebol”, embora reconheça que nem sempre as informações eram concretas.

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A entrevista também mergulhou nas complexas e milionárias transferências de alguns dos maiores talentos agenciados por Ribeiro. Sobre Neymar, o empresário contou que o craque chegou a ir ao Real Madrid três vezes ainda na adolescência e assinou um pré-contrato, que poderia ser rompido. A decisão final de ir para o Barcelona, na época, foi do próprio jogador, apesar do empenho de Ribeiro em levá-lo para a capital espanhola. O agente também confirmou ter intermediado a venda de 40% dos direitos econômicos de Neymar ao Grupo DIS, uma negociação que gerou uma longa disputa judicial.

Na saída de Neymar do Barcelona para o Paris Saint-Germain, em 2017, Ribeiro esteve envolvido em reuniões cruciais. Ele revelou que o PSG inicialmente ofereceu 25 milhões de euros de salário, enquanto o jogador recebia 11 milhões no Barcelona. A proposta vazou e o clube catalão cobriu, oferecendo 26 milhões. Um ano depois, o PSG pagou a multa rescisória de 222 milhões de euros e Neymar assinou por 40 milhões anuais, consolidando uma das maiores transferências da história. “Dinheiro é tudo, não?”, questionou o empresário.

Ao longo da carreira, Wagner Ribeiro enfrentou diversas polêmicas, incluindo acusações de sonegação fiscal e protestos de torcedores que o apelidaram de “Wagner Dinheiro”. Ele defendeu sua conduta em casos como o de Robinho, que foi condenado por violência sexual na Itália, alegando que o ex-jogador foi mal assessorado juridicamente e que a acusação tinha motivações financeiras, o que diverge da conclusão do processo judicial.

Sobre o futuro de Neymar, que tem enfrentado lesões e não conseguiu a Bola de Ouro (Ribeiro atribui a “política” e o poder do Real Madrid nos bastidores), o agente acredita que o craque ainda tem pelo menos mais dois anos de futebol em alto nível. Ele sugere que um destino na MLS (Estados Unidos) ou em outro clube brasileiro (fora do Santos, que ele não vê como SAF para o pai do jogador) poderia ser ideal. Ribeiro também defendeu o pai de Neymar como um “gênio” na gestão financeira da carreira do filho.

Hoje, Wagner Ribeiro foca em jovens talentos, desde os 10 anos, atuando na captação e apresentação aos clubes. Ele afirma que a presença de um agente é “impossível” de ser dispensada na carreira de um jogador moderno, ressaltando a importância do conhecimento e da rede de apoio neste mercado em constante transformação.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.