Ayrton Senna morreu há 32 anos. A Fórmula 1 seguiu em frente, com novos campeões e recordes. Mas, para milhões de brasileiros, alguma coisa nunca mais foi a mesma. Nesta semana, a Zara lançou uma coleção inspirada no piloto. Mais de três décadas depois, Senna continua movimentando negócios e conquistando gerações que sequer o viram correr.

Não conheci Ayrton pessoalmente, mas tive a oportunidade de conhecer sua irmã, Viviane Senna. Durante minha passagem pelo McDonald's Brasil, decidimos incluir o Instituto Ayrton Senna entre os beneficiários do McDia Feliz. Conversando com Viviane, conheci melhor o trabalho de quem mantém vivo o legado do piloto.

Para quem acordava cedo aos domingos para vê-lo correr, Senna era insubstituível. Não apenas pelas vitórias, mas pela emoção que provocava. Havia algo especial em acompanhar aquelas corridas, torcer, sofrer e comemorar com ele. Até hoje, basta ouvir seu nome para que muita gente se lembre de como se sentia naqueles domingos.

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A Fórmula 1 não parou quando ele morreu. Outros pilotos chegaram, outros campeões foram celebrados. E Senna continuou fazendo falta.

Essa aparente contradição me faz pensar sobre uma das armadilhas da liderança: a necessidade que algumas pessoas têm de se tornar indispensáveis.

No esporte, a genialidade individual pode transformar um atleta em herói. Senna foi um deles. Nas empresas, porém, a dependência de uma única pessoa pode se tornar um problema. Conheci executivos que se orgulhavam de ser chamados para resolver tudo. Reclamavam que ninguém tomava uma decisão sem consultá-los, mas, no fundo, gostavam daquela dependência. É o fundador que precisa aprovar cada detalhe. Ou o gerente sem o qual a operação não funciona. Até o dia em que essa pessoa tira férias ou vai embora. A empresa descobre, então, que não tinha um processo. Tinha uma pessoa.

Eu mesmo precisei aprender algumas lições difíceis. No início da carreira, depois de deixar o Exército, acreditava que sabia liderar. Até receber minha primeira avaliação 360 graus.

Meus superiores, colegas e subordinados me definiram com quatro palavras: arrogante, fechado, arbitrário e prepotente. Meu mundo caiu naquele dia.

Melhorei nas avaliações, mas continuava preso à imagem do líder que precisava parecer forte e ter todas as respostas. Havia me tornado um excelente chefe, mas continuava sendo um líder medíocre.

Quando assumi o McDonald's Brasil, encontrei a empresa num momento difícil. Percebi que estava tentando fazer coisas demais sozinho. Precisávamos desenvolver líderes onde o negócio realmente acontecia: nos restaurantes. Criamos espaços para que os gerentes participassem das decisões, questionassem a diretoria e tivessem autonomia para agir. Eu costumava dizer que o McDonald's não tinha apenas um CEO. Tinha mais de mil CEOs espalhados pelo Brasil.

Os resultados apareceram. Em três anos, as vendas cresceram 80%, a rotatividade e o absenteísmo caíram pela metade e o percentual de clientes altamente satisfeitos passou de 50% para 75%. Não foi mérito de uma única iniciativa, mas de uma transformação que deu voz a quem estava na linha de frente.

Foi uma mudança importante para a empresa e para mim. Aprendi que meu trabalho não era fazer com que todos precisassem de mim, mas ajudá-los a crescer a ponto de não precisarem.

Só que existe uma parte da liderança que os números não conseguem medir. Quando alguém deixa uma empresa, outra pessoa assume seu lugar. As reuniões continuam, os clientes precisam ser atendidos, as decisões precisam ser tomadas. E é bom que seja assim. Mas o que acontece com as pessoas que trabalharam com você? Será que vão se lembrar de alguém que acreditou nelas quando ninguém mais acreditava? Ou apenas de quem cobrava os números no fim do mês?

Penso novamente em Senna. Sua família, o Instituto Ayrton Senna e as pessoas que cuidam de sua marca continuam trabalhando para manter vivo seu legado. Mas nenhuma coleção de roupas explica, sozinha, por que Senna ainda faz tanta falta. A resposta está na relação que ele construiu com milhões de pessoas, muitas das quais nunca chegaram perto dele.

A Fórmula 1 continuou sem Senna. E isso não diminuiu em nada o que ele representou. Nas empresas, deveríamos desejar algo parecido: que o negócio continue crescendo quando sairmos, mas que as pessoas guardem alguma coisa boa da nossa passagem.

Se você saísse amanhã, sua empresa sentiria saudade? Ou simplesmente pararia?

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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